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Perfil: “Sou um simples pescador que aprendeu a arte da carpintaria naval e se apaixonou por instrumentos musicais” – Lugi di Maio

*** Por Carmen Martins, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 05 Fev (Inforpress) – Assis Gonçalves é o nome de registo de Lugi di Maio, um santiaguense que há 48 anos vive na ilha e que considera ser um simples pescador que aprendeu a arte da carpintaria  naval e apaixonado por instrumentos musicais.

Assis Miranda Gonçalves nasceu em 1960, em São Tomé e Príncipe, fruto de um amor entre uma jovem mulher da ilha do Fogo e de um rapaz natural da Ribeira Barca, de Santa Catarina de Santiago, cujos caminhos se cruzaram na década de 50, naquele país lusófono.

O nome Lugi, conforme explicou em entrevista à Inforpress, a propósito do dia Nacional do Pescador, que se assinala hoje, foi-lhe atribuído por sugestão de um português, amigo da família na altura, quando os seus pais ainda viviam em São Tomé e Príncipe.

Os pais regressaram a Cabo Verde no mesmo ano do seu nascimento e quando tinha 14 anos, juntamente com a família, mudou-se para a ilha do Maio, uma parte de Cabo Verde que, confessou, ama como sendo a sua segunda casa e querida ilha.

Segundo disse, a profissão de pescador é uma tradição da família e das pessoas que vivem em Ribeira da Barca, que é uma zona piscatória no interior de Santiago. O avô e o pai eram pescadores, daí, o incentivo de ele também seguir os mesmos passos “dos homens da família Gonçalves”.

Aliás, realçou que é eternamente grato ao pai, falecido há já alguns anos, por tudo o que conquistou e pela pessoa que se tornou, mostrando-se “orgulhoso” não só de ser pescador, carpinteiro naval e músico, mas também de estar a dar continuidade aos ensinamentos do mesmo que, também, desempenhava essas três funções.

Casado, pai de nove filhos, Lugi di Maio é hoje o único carpinteiro naval da ilha, que nesses 20 anos de serviços, já construiu quase cem embarcações não só para o mercado local, mas também que foram exportados para outras ilhas do país.

“Sou o único que faz embarcações na ilha do Maio, mas tenho comigo dois dos meus filhos que estão a aprender. Assim como o meu pai me ensinou, estou também a transmitir esses ensinamentos a eles porque quando não estiver mais em condições de fazer embarcações, sei que darão continuidade ao legado que começou com o meu avô”, ressalvou, referindo que ser pescador, carpinteiro naval e músico ao mesmo tempo não é cansativo.

Ao lançar um olhar sobre o sector das pescas e o seu desenvolvimento na ilha do Maio, lamenta o facto de a quantidade de peixes no mar estar a diminuir, mas mostra-se, por outro lado, “satisfeito” que o sector esteja a ganhar alguma dinâmica nos últimos tempos com a comercialização de pescado para outras ilhas.

Disse, por outro lado, que como carpinteiro naval enfrenta dificuldades com a falta de matéria-prima para a construção das embarcações, frisando que muitas das vezes perde muito tempo para finalizar os trabalhos porque tem que esperar os materiais virem de outros países africanos ou europeus, uma vez que no mercado cabo-verdiano não é possível encontrar tudo o que precisa para fazer barcos com estabilidade conforme exigido pelas autoridades nacionais.

Questionado como é que consegue conciliar a profissão de pescador, carpinteiro naval e ainda encontrar tempo para tocar violino, cavaquinho e violão, disse que o segredo de tudo isso é o amor, ou seja, explicou, “quando se ama o que se faz tudo fica mais simples e prazeroso”.

“Acredito que isto é mais um dom que recebi de Deus, que usou o meu pai para que eu pudesse receber este presente. Ele era uma pessoa que eu admirava muito e sempre quis ser como ele, então escolhi desde cedo, o que eu queira ser quando fosse adulto. Acho também que as circunstâncias da vida contribuíram para que tudo fosse da forma que é”, afirmou.

“Hoje se me perguntarem quem é Lugi, respondo que sou um simples pescador que aprendeu a arte da carpintaria  naval, mas que se apaixonou pelo violino, cavaquinho e violão quando ainda criança. Não posso separar o Lugi pescador, do Lugi carpinteiro naval e do músico, sou a mesma pessoa fazendo qualquer coisa que amo com a mesma entrega”, declarou.

A paixão por instrumentos musicais surgiu quando ainda era criança e aprendeu observando o pai quando tocava. Já actuou em festivais, Portugal e várias ilhas do país, asseverando que nunca quis fazer da música a sua verdadeira profissão preferindo que fosse apenas um “hobby”.

“Gosto de actuar, faço isso por diversão. Com o passar dos anos fui aprendendo, aprimorando e hoje o pouco que sei tem-me permitido partilhar palcos com vários artistas nesses anos da minha existência”, declarou.

Lugi di Maio afirmou que não imagina sua vida sem essas três áreas e que considera ser uma pessoa “realizada” e “abençoada”, que com muito esforço e dedicação conseguiu concretizar os seus planos, revelando que tem ainda o sonho de criar uma escola de construção naval para transmitir os ensinamentos sobre a carpintaria naval a mais pessoas, para que a ilha tenha no futuro mais carpinteiros navais.

Entre sorrisos e sentimentos de gratidão, disse que sua maior inspiração nesses anos de lutas e conquistas, foi e sempre será o seu falecido pai, que desde o início fez questão de lhe mostrar que se quisesse ter uma profissão teria de se esforçar, mesmo não sendo remunerado, financeiramente, quando na altura o ajudava na construção das embarcações. 

“Hoje, vejo essa recompensa e entendo melhor a sua rigidez na altura e o que ele queria dizer verdadeiramente. Sou o que sou graças a ele, sou uma pessoa querida no Maio, tenho muitos amigos, talvez por ser uma pessoa muito brincalhona. Tenho muito a louvar a Deus, ao meu pai e a esta ilha, enfim, queria finalizar dizendo que, enquanto tiver vida e saúde, farei tudo com amor e que quando não tiver mais forças, simplesmente sairei de cena, feliz, por ter cumprido a minha missão”, concluiu.

CM/HF

Inforpress/Fim

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