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PERFIL: “Sou agricultora e feliz mesmo que tiver apenas arroz para cozinhar” – Lúcia Monteiro

Mindelo, 08 Mar (Inforpress) – A chegada  da covid-19 em São Vicente mudou a vida da agricultora Lúcia Monteiro, 58 anos, que pegou parte dos 16 netos e foi morar num terreno de três mil metros quadrados, na zona de Txon d´Holanda.

Lá, construiu um pequeno abrigo de madeira, que cobriu com uma alcatifa e forrou   de plástico, para proteger-se do sol e da chuva.

Com isso alargou o perímetro da minúscula casinha de lata que já havia erguido no terreno, que ganhou há 11 anos do então Ministério do Desenvolvimento Rural (MDR).

“Antes da chegada do coronavírus vivia na minha casa em Fernando Pó, mas ia todos os dias para Txon d´Holanda, [perímetro agrícola na   Ribeira de Vinha], levantava-me de madrugada, às 05:30, para apanhar o carro às 06:30, e voltava para casa às 15:30”, contou Lúcia Monteiro à Inforpress, enquanto cortava folhas de tabaco, que ela mesma plantou.

Dos netos que levou consigo apenas um de 16 anos ficou, porque os outros regressaram à zona de Fernando Pó com o início das aulas.

A decisão de ir morar nesse perímetro agrícola foi motivada pelo medo de partilhar o transporte com muitas pessoas, disse Lúcia Monteiro, que actualmente regressa à casa apenas aos domingos para lavar as roupas que usa durante a semana a trabalhar a terra.

Antes, explicou, cuidava do terreno quando podia, porque trabalhava na cidade do Mindelo como empregada doméstica, mas nunca foi feliz com essa lida.

Agora, apesar do “cansaço e da vida difícil”, esta mulher de 58 anos faz da agricultura o seu modo de vida.

“Trabalhar na terra é difícil. Ainda mais quando se é mulher para pegar na enxada para semear e cultivar. As vezes, se estiver a lançar sementes de cebola ou de coentro, quando me deito custa-me a levantar porque as minhas costas doem, mas é assim a vida”,  relatou Lúcia Monteiro, adiantando que já procurou sustento de diversas formas, mas nunca deram certo.

“Fazer agricultura é cansativo, mas dá certo porque sei que eu não passo fome. Sinto-me feliz mesmo que tiver apenas arroz para cozinhar, porque adiciono lentilha e couve e passo o dia. Nem se for pouco eu consigo alguma coisa. Se não tiver 100 escudos hoje, tê-lo-ei amanhã”, afirmou, confiante.

Lúcia Monteiro passa dias sem ver as seis filhas e o marido que é marinheiro.

Os encontros são casuais, porque quando o marido está em terra Lúcia está em Txon d’Holanda a cultivar a terra.

“Vivo assim, e vivo tranquila porque estou acostumada. Mas quando há lua para apanhar peixe de rede ele vem todas as noites para cá”, adiantou, enquanto cavava a terra para semear cebolas.

Apesar disso, a mesma esclareceu que trabalhar a terra nunca foi algo novo para ela. Natural de Martiene, concelho de Porto Novo, Santo Antão, Lúcia é filha de agricultores e, por isso, começou cedo a ajudar o pai na agricultura.

“Comecei quando levava café para o meu pai. Tinha 11 anos, chegava na lavra pegava na enxada e trabalhava com eles. Regava, cultivava batata e depois comecei a semear tabaco e ia regando com uma canequinha”, recordou a agricultora.

Por isso, diz fazer questão de transmitir para as seis filhas este exemplo de trabalhar frente às dificuldades, algo que aprendeu em Santo Antão.

Aliás, revelou que durante o tempo em que trabalhou como empregada doméstica era uma das suas seis filhas quem cuidava do terreno em Txon d’ Holanda, e negociava os produtos que dali tirava.

Lúcia disse ter “vivido uma vida dura” mas, “foi graças a esses sacrifícios” que conseguiu criar as filhas.

“Criei duas filhas em Santo Antão. Trabalhava nas obras do Estado, mas depois das 11:00 ia para um lugar longe para apanhar lenha para vender. Quando a comida acabava eu ia apanhar pasto e levava aos currais para poder ter dinheiro para comprar leite para dar de comer às minhas filhas”, adiantou.

Hoje, ela afirma que também faz questão de agradecer aos pais, André Monteiro e Margarida do Rosário, por a terem ensinado a enfrentar as dificuldades.

CD/CP

Inforpress/Fim

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