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Músico brasileiro Emicida diz que hip-hop é como “telefone” da diáspora africana pelo mundo

Coimbra, 20 Out (Inforpress) – O músico brasileiro Emicida defendeu que o hip-hop é como “um grande telefone da diáspora africana pelo mundo”, permitindo restabelecer a sua ligação àquele continente.

Emicida, que está em Portugal a convite do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra para uma residência artística, começou no hip-hop – foi o género onde se assumiu como artista, mas também onde ganhou consciência política e social.

No entanto, realçou que essa manifestação cultural não foi criada nos anos 1970 nos bairros pobres de Nova Iorque, nos Estados Unidos, mas antes “nomeada” lá, porque, na sua perspectiva, “já acontecia numa série de outras sociedades”.

“O rap e a cultura hip-hop é como se fossem um grande telefone da diáspora africana pelo mundo, que vai restabelecendo a sua conexão com o continente mãe da humanidade”, frisou.

Para o artista, “essas culturas foram desassociadas, destroçadas, mas resistiram de uma maneira magnífica e produziram resistências e essa resistência floresceu no formato de culturas como o hip-hop e o rap”.

Leandro Roque de Oliveira, nome de Emicida, nasceu pobre em São Paulo e a consciência que foi desenvolvendo deve-a toda, inicialmente, à sua relação com a música – “a primeira biblioteca a que tive acesso”.

“Os livros vão transformar-se em bússolas de referência intelectual, porque os artistas, sobretudo no rap, falam em nomes de pessoas que eu não fazia a menor ideia e antes de conhecer essa música eu era levado a acreditar que todos os problemas que me cercavam eram questões pessoais – um problema pessoal de Deus para comigo. A primeira vez que sou tocado por uma reflexão mais ampla é graça à música rap”, disse.

Quanto mais foi mergulhando nessa cultura e nesse universo, mais a sua consciência se foi “expandindo, até para lá de questões” que lhe tocavam “do ponto de vista prioritário”, refere.

“Não me interessa discutir somente raça. Há classe, há género e essas coisas não devem ser questões desassociadas. Eu nunca tinha elaborado sobre isso, mas elaborei graças às músicas”, afirma.

Hoje, acredita que está “a meio caminho” – uma espécie de “elo perdido” – entre o rap e o samba, depois de ter lançado “AmarElo”, álbum que rotulou como “neossamba”, procurando acenar a referências que não aquelas vindas dos Estados Unidos, ainda que também sejam importantes e tenham influenciado o seu percurso.

Para além do álbum lançado em 2019, Emicida lançou em 2020 o documentário com o mesmo nome, na plataforma Netflix, onde expande o gesto do disco e foca-se na homenagem às múltiplas personagens negras da história da cultura, da arte e da política brasileira

O documentário, resume, vai atrás dos espaços deixados em branco, as histórias que ficaram por contar de pessoas cuja mobilização e activismo tornaram reais “muitas das possibilidades” que a sua geração desfruta, como o arquitecto Tebas, a professora e activista Lélia Gonzalez, a actriz Ruth de Souza, o baterista Wilson das Neves ou a sambista e deputada Leci Brandão.

“Falar sobre essas personagens é entregar fragmentos fundamentais para compreender a história daquele país como um todo, partindo de um recorte muito específico, que é São Paulo”, salienta.

O músico, que está em Portugal desde Julho, entre Porto, Coimbra e Lisboa, e que regressa ao Brasil na quinta-feira, salienta que aceitou o convite do Centro de Estudos Sociais porque acredita que o mundo académico e a cultura popular devem partilhar aprendizagens “para melhorar o ambiente de ambos”.

“Eu acho que a academia pode aprender muito com a fluidez e sensibilidade da cultura popular, assim como a cultura popular pode aprender muito com a sistematização de conhecimento de formas do mundo académico”, disse o músico que admite gostar do ambiente da academia – “da reflexão pela reflexão”.

De Portugal, leva “muitos livros”, especialmente de escritores africanos lusófonos, mas também noutras voltas aproveita para descobrir discos, com especial enfoque para a música “eléctrica” dos anos 1970 de Angola e Cabo Verde, não apenas pelos ritmos, mas pela mensagem de artistas que num período “sociopolítico muito tenso” que funcionavam “como verdadeiros fotógrafos da experiência humana”.

“É isso que tento ser na minha obra. No futuro, gostaria de ser visto como alguém que conseguiu retirar um retrato fiel e honesto do seu tempo”, disse.

Inforpress/Lusa

Fim

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