Search
Generic filters
Exact matches only
Search in title
Search in content
Search in excerpt
Filter by Categories
Politica
Desporto
Economia
Sociedade
Ambiente
Cooperação
Cultura
Internacional
Destaques
Eleições

De meros foliões em São Vicente ao curso no Rio de Janeiro e o regresso ao Brasil como dirigentes do Carnaval

 

*** Por Américo Antunes, da agência Inforpress, no Rio de Janeiro (Brasil)***

Rio de Janeiro, Brasil, 03 Dez (Inforpress) – As vidas de David Leite, Emanuel Rodrigues e Guilherme Oliveira, a dado momento se cruzaram quando vieram estudar no Brasil: já traziam o “bichinho do Carnaval”, mantiveram a chama aqui, e regressaram agora como dirigentes de grupos.

Têm também em comum o facto de serem os únicos na caravana mindelense, em intercâmbio no Brasil, que cursaram no Rio de Janeiro: David Leite (Daia), 45 anos, cursou Arquitectura, em 1999, Emanuel Rodrigues (Ima), 49 anos, licenciou-se em Economia no mesmo ano, e Guilherme Oliveira (Régi), 32 anos, tirou o cursou de Medicina Veterinária, dez anos depois.

David Leite, hoje presidente da Escola de Samba Tropical, considera que se sentiu em casa quando veio pois, como referiu, o cabo-verdiano tem “identidade forte” com o Rio de Janeiro, especificamente, devido ao clima e ao seu povo.

“Por isso, quando cheguei senti-me em casa, até porque antes de vir já tinha tido contacto com o Carnaval em São Vicente, mas como folião e amante da festa, sem experiência como dirigente de grupo”, ajuntou Daia, como também é conhecido.

Com o companheiro de jornada académica no Brasil, Ima, como é conhecido Emanuel Rodrigues, actual delegado do Carnaval do Grupo Vindos de Oriente, vieram morar justamente numa cidade (Niterói) que tinha uma escola de samba, o Viradouro, o que os fez aproximarem-se ainda mais do Carnaval, “como público, como folião”, já que como estudante não tinha acesso “aos meandros e à cúpula” do Carnaval.

Embora no caso de Ima, como contou, tenha criado amizades junto da directoria do Viradouro e até recebido convites para desfilar, o que não concretizou, porque “vida de estudante” não permite “certas veleidades”.

Guilherme Oliveira, também conhecido por Régi, director de Carnaval do Grupo do Monte Sossego, confessa a condição de folião ainda em São Vicente, desde os seus 14 anos, dez anos depois de fixar, com os pais, residência em São Vicente, vindos de Santo Antão, de onde é natural.

Apesar das renitências do pai que não o deixava desfilar nos grupos antes dos 14 anos, por receio que muita festa atrapalhasse nos estudos, como terá acontecido ao progenitor, Régi, mais adulto, ainda desfilou “uns quatro anos” no Samba Tropical, antes de rumar à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Aqui, o amor ao Carnaval fez dele pesquisador de tudo o que se relacionasse com a festa, e conseguiu, devido a uma greve, passar um mês de férias a trabalhar “de graça” na sua escola de samba “do coração”, a Estação Primeira da Mangueira, circunstância que veio despertar nele “mais curiosidade e interesse” para o Carnaval, pois conseguiu “ver tudo de dentro”.

Ima, por seu lado, chegou ao Brasil “já com o samba no pé”, pois já “dançava e sambava” em São Vicente, mas a paixão aumentou quando os colegas de Niterói o levaram, bem cedo, para os ensaios da Viradouro.

Os três não tem dúvidas, pois, que a vivencia nas quadras e nos ensaios carnavalescos, durante o curso no Brasil, influenciaram definitivamente para que hoje aceitassem os cargos nos grupos mindelense, porque se sentiram “mais preparados”.

“Temos a nossa identidade própria, a nossa forma de fazer o Carnaval, mas temos muita coisa que foi bebido no Entrudo brasileiro”, refere Daia, opinião corroborava pelos restantes companheiros.

Todos já regressaram em férias ao Brasil depois do curso, mas, desta vez, integrados numa missão de intercâmbio dos grupos oficiais de São Vicente, no auge dos preparativos do maior espectáculo de rua do planeta, consideram tratar-se de “algo único” pois, como referiu Daia, deu para “entrar dentro dos bastidores dos maiores crânios do Carnaval carioca”.

“Conseguimos entrar no meandro e ser tratados como se estivéssemos de igual para igual, como se de um intercâmbio entre agentes do Carnaval do mesmo nível se tratasse”, refere a mesma fonte, para quem tal “não tem preço” e “é fantástico”.

Porque, acrescenta, apesar de reconhecer capacidade na nova geração que está a fazer o Carnaval em São Vicente, esta digressão permitiu “conhecer e dar um passo em frente” naquilo que São Vicente estava a necessitar, nesta matéria.

Régi, por seu lado, destaca o facto de o intercâmbio permitir a possibilidade de ver não só a parte de produção directamente, como também a parte da organização da produção.

“É uma outra visão, de um ganho extraordinário, até porque pouca gente em Cabo Verde tem a possibilidade de pagar uma formação para juntar tudo o que estamos a conseguir no Rio de Janeiro em dez dias”, precisou.

Ima é peremptório, pois, conforme disse, desta vez foi “completamente diferente” não só porque teve a oportunidade de conversar com os presidentes de escolas de samba como Portela, Salgueiro e Viradouro, como também recolher “informações e conhecimentos” do Carnaval que antes não dispunha.

“É uma iniciativa a repetir, agora, se calhar, virada para os artistas e profissionais do Carnaval, sempre em busca de congregar conhecimentos em prol da melhoria do nosso Carnaval”, sentenciou.

A questão final prende-se com a expectativa gerada com a viagem e os seus resultados práticos no desfile do Mindelo já no próximo ano.
Régis diz que o “e agora?” fica a depender de outras situações que extrapolam a vontade dos grupos e que passa pelo financiamento, pois, a menos de 70 dias para o Carnaval, se não houver dinheiro, os projectos podem ficar em causa.

“Por exemplo, se os grupos tivessem viajado ao Brasil já com a primeira tranche recebida é só imaginar a quantidade de material que iríamos levar, poupando quase um quarto do preço que conseguimos em Cabo Verde”, sentencia, corroborando a ideia de que os ensinamentos “foram óptimos”, e que agora há que procurar melhorar a cada ano.

Na mesma linha, Daia afirma que “não há toques de mágica”, pois em pleno mês de Dezembro, num “ano difícil”, os grupos ainda “não sabem com que financiamento contar” para o Carnaval, pelo que, assinalou, chegou a hora de o Estado de Cabo Verde consciencializar-se de que o Carnaval de São Vicente está enraizado na cultura da ilha e que “indiscutivelmente” tornou-se num produto turístico.

“Assim como o Estado investe no Sal e na Boa Vista na criação das condições de urbanismo e segurança por causa do turismo, há que haver também um investimento forte no Carnaval porque estamos a falar de um produto turístico para além de cultural”, concluiu o presidente da Escola de Samba Tropical.

Para além de visitas aos estaleiros de construção de alegorias e carros alegóricos, na Cidade do Samba, e de encontros ao mais alto nível com os agentes que põem de pé, anualmente, o Carnaval do Rio, os integrantes da caravana carnavalesca de São Vicente participaram nos ensaios das escolas de samba Viradouro, Portela, Beija-Flôr, Unidos da Tijuca e Mangueira.

Antes de regressar a São Vicente, esta terça-feira, toda a comitiva será recebida, esta segunda-feira, na Rede Globo e Televisão, para participar na gravação do programa “Encontro”, com Fátima Bernardes.

AA/JMV

Inforpress/Fim

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
  • Galeria de Fotos