Literatura cabo-verdiana: O velho é ainda o único novo que vai havendo por lá – José Luiz Tavares

 

Cidade da Praia, 30 Jun (Inforpress) – O poeta cabo-verdiano José Luíz Tavares, que apresenta nesta sexta-feira, na Cidade da Praia, o livro “Contrabando de Cinzas”, afirmou não ver hoje nada de radicalmente novo na literaturas cabo-verdiana.

“O velho é ainda o único novo que vai havendo por lá”, adiantou o autor do “Paraíso Apagado por um Trovão”, tido como “o mais importante” poeta do actual panorama das letras do arquipélago.

Em declarações à Inforpress, o tarrafalense residente em Portugal diz regozijar-se, entretanto, com a realização, em Outubro, na Cidade da Praia, do festival literário Morabeza.

“Penso que é uma boa oportunidade de o livro e o escritor ganharem mais visibilidade mediática”, disse, destacando que quando este governo decidiu juntar cultura e comunicação social, pensou que poderia ser um “ganho para o livro, mas nada mudou”.

“Aliás, essa área só causou empecilhos à causa da cultura erudita. Urge removê-la para outros mais pacatos ministérios e mãos mais experimentadas”, vincou.

Quanto ao nome morabeza, atribuído ao festival literário que promete trazer à capital destacados escritores do mundo lusófono, entre os quais Mia Couto (Moçambique) e José Eduardo Agualusa (Angola), o autor de Lisbon Blues torce o nariz.

“Não lembraria nem ao próprio inventor desse conceito, se é que não foi uma partida do demo. É a mania de se embrulhar a exigente área das artes eruditas em roupagens populares. A morabeza não tem que ver com literatura. Aliás, algumas vezes, o conceito até foi por ela causticada. Hoje somos mais o país do kasu-bodi do que da morabeza: é uma evidência sociológica”, afirmou.

“Porque não um nome ou conceito que esteja mais ligado à literatura, por exemplo, hespérides ou hesperitano, que além de remeter para uma ancoragem mítica, remete também para um uso e uma percepção especificamente literários”, propôs.

Pires Laranjeira, professor Associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), em ensaio crítico, afirma que José Luiz Tavares é um poeta que tem “toda a potencialidade da língua portuguesa para se expandir” e que, “escolhendo a expressão, expande as tensões da língua até ela fazer sangue e rasgar a carne de quem lê”.

Solicitado um comentário sobre as críticas positivas e especializadas que têm sido produzidas sobre as suas obras, José Luiz Tavares negou dar uma resposta, mas sublinhou que “são juízos duma amplitude tremenda”.

“Devias era dá-las a conhecer aos doutores da nossa academia de letras, a ver se tinham algum pejo nas caras, barbadas ou não, e nas tolas de poucas e miseráveis letras”, disse.

Envolto ultimamente em alguma polémica nos círculos culturais e literários do arquipélago, José Luiz Tavares afirmou à Inforpress que “certos ressabiados” em Cabo Verde acham que  ele não é humilde”,  porque não “aceita opiniões que não derivem do conhecimento da poesia universal e da sua própria, e duma sensibilidade exercitada nos altos meandros do estético”.

“Não é uma questão de falta de humildade. É uma questão de exigência e de adequação. Eu a única humildade que cultivo é perante o meu próprio trabalho, em que, cada vez que torno a ele, descubro o muito que há que melhorar”, esclareceu.

Segundo o poeta, os seus “dias triunfais” são aqueles em que, revisitando o já escrito, parte dele vai parar ao caixote do lixo.

“Alguns sonham ser doutores – eu sonhei ser poeta. Tantos ambicionam ser ministros e quejandos – eu só quis ser poeta. Sonham mansões, comendas e estátuas – eu sou o sonho dos meus sonhos. Por isso não permito que as suas manápulas emporcalhadas e as suas línguas peçonhentas toquem neles. Defenderei com tinta e sangue, com violenta galhardia, o que se consubstanciou em obra, nos padecimentos que apenas a mim dizem respeito”, vincou.

O livro “Contrabando de Cinzas” será lançado hoje, pelas 18:00, na Biblioteca Nacional, no âmbito das celebrações dos 50 anos do poeta.

A obra, já apresentada no Brasil, será dada a conhecer pela professora universitária Fátima Fernandes, cuja tese de dissertação, apresentada ao programa de pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 2016, incidiu sobre as obras de José Luíz Tavares, João Varela (Vário) e Corsino Fortes.

“Contrabando de Cinzas” é um volume de cerca de 300 páginas e apresenta-se como uma “revisitação e súmula da poesia édita e inédita” de José Luíz Tavares, exceptuando aquela escrita para neo-leitores jovens e adultos, e a que está escrita em língua cabo-verdiana.

José Luiz Tavares nasceu a 10 de Junho de 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, tendo estudado Literatura e Filosofia em Portugal, onde reside desde há quase 30 anos.

Publicou “Paraíso Apagado por um Trovão (2003); “Agreste Matéria Mundo (2004); “Lisbon Blues seguido de Desarmonia” (2008); Cabotagem&Ressaca (2008); “Cidade do Mais antigo Nome” (2009); “Coração de lava” (2014); “Contrabando de Cinzas” (2016).

Por estas obras, já foi distinguido por diversas vezes, tendo ganhos os prémios, entres outros, o de Revelação Cesário Verde-CMO 1999; Mário António-Fundação Calouste Gulbenkian (2004); Jorge Barbosa-Associação de Escritores Cabo-Verdianos (2006); Pedro Cardoso -Ministério da Cultura de Cabo Verde (2009) e Cidade de Ourense (2010).

Por três vezes consecutiva, 2008, 2009, 2010, recebeu o Prémio Literatura para Todos, do Ministério da Educação do Brasil.

Os seus livros estão traduzidos para inglês, espanhol, francês, italiano, catalão, finlandês, russo, mandarim e galês.

JMV/ZS

Inforpress/Fim

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