Investigadora defende que a fome foi “instrumentalizada” como fenómeno de emigração para São Tomé e Príncipe

Cidade da Praia, 21 Out (Inforpress) – A investigadora e professora universitária Carla Semedo defendeu hoje, na Praia, que a fome foi “instrumentalizada” como fenómeno de emigração para São Tomé e Príncipe e que toda a dinâmica laboral e social ali existente era “escravocrata”.

Carla Carvalho Semedo fez essas afirmações na sua apresentação durante a “conversa aberta” sobre a emigração para São Tomé e Príncipe, enquadrada nas comemorações do Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, que se assinalou no dia 18 deste mês, organizada pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, através do Instituto do Arquivo Nacional.

Na sua comunicação intitulada “A ilusão do contrato – A comunidade cabo-verdiana em São Tomé e Príncipe”, Carla Semedo apontou que a emigração foi “imposta” dado que ou “se emigrava ou morria de fome”.

“Tinham alternativas infernais, você morria ou se padecia de fome ou então tinha que emigrar para São Tomé e Príncipe (…), cujas roças de cacau, cobre, coco e café ganhavam força em relação às do Brasil”, precisou a antropóloga social.

Esta instrumentalização da fome, esclareceu a investigadora, foi uma situação humana e social criada para as pessoas se sentirem “totalmente desamparadas” e com a emigração a aparecer como último recurso.

“Por outro lado, a emigração para os Estados Unidos da América, que apareceu bem antes, foi totalmente impossibilitada pela questão da documentação “, acrescentou.

Estes condicionalismos, segundo Carla Semedo, foram mobilizados pela administração colonial portuguesa para impulsionar a emigração para São Tomé e Príncipe.

Por outro lado, defendeu que toda a dinâmica relacional e laboral que existia em São Tomé e Príncipe era “escravocrata” e que ao longo dos tempos se produziu uma única história sobre a emigração dos cabo-verdianos para aquele país do Golfo da Guiné.

“Esta única história está associada a essa narrativa da miséria humana, no atraso civilizacional e principalmente de uma emigração que incomoda e que não foi apresentada como de sucesso”, apontou Carla Semedo, defendendo que há outras narrativas sobre esta emigração.

A “conversa aberta” contou também com a comunicação do sociólogo Nardy Sousa, intitulada “São Tomé e Príncipe Pós-Independência: 1975 -1989:  A dupla responsabilidade dos ex serviçais que viraram cidadãos”.

A emigração dos cabo-verdianos para São Tomé e Príncipe começou em 1903, para trabalhar como mão-de-obra nas roças são-tomenses.

OM/CP

Inforpress/Fim

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