Independência/45 anos: “Entrar na luta de libertação foi algo natural” – Luís Fonseca (c/áudio)

*** Por Letícia Neves, da Agência Inforpress ***

Mindelo, 03 Jul (Inforpress) – O antigo combatente da “luta clandestina” para a tomada da independência de Cabo Verde, Luís Fonseca, acredita que entrar para essa luta foi “algo natural”, tendo em conta os vários acontecimentos, que o “chocaram” desde novo.

Assim se sente este “menino de Santo Antão”, que deixou a sua terra natal, Ponta do Sol, aos 11 anos para estudar em São Vicente e cidade da Praia, mas ainda assim presenciou alguns acontecimentos, que o “marcaram para sempre” e moldaram a sua atitude perante a vida.

Luís de Matos Monteiro da Fonseca, neste momento com 76 anos e a viver no Mindelo, assegurou que ingressar na luta de libertação foi “algo natural”, depois de muito criança testemunhar, em Santo Antão, uma das grandes fomes que tiveram lugar no País.

“Uma coisa que chocou bastante a minha sensibilidade de criança foi um desfile de corpos a serem levados para a sepultura sem caixão, eram levados em lençóis. Até hoje mantenho esta imagem fúnebre na mente, na memória”, contou Luís Fonseca, que junta a esse “momento marcante” a leva de pessoas para as roças de São Tomé e Príncipe.

Isto porque, as pessoas, que iam se alistar para esta “viagem” eram lhes dado alguma quantidade de alimentos, e depois as que tentavam fugir do “compromisso” eram capturadas pelas autoridades coloniais, amarradas e embarcadas à força.

Dois acontecimentos, que, segundo a mesma fonte, colocaram “várias interrogações” e “muito cedo” o fizeram chegar à conclusão, que havia uma “coisa muito errada”, a que tentou responder através da leitura.

Mas, a “chama” acenderia, com certeza, já na cidade da Praia e a estudar o quinto ano dos liceus, na altura do início da guerra colonial em Angola e do assalto ao Paquete Santa Maria. Também onde encontrou um grupo do qual constavam nomes como Osvaldo Azevedo, Arménio Vieira, Mário Fonseca e Manecas Chantre.

“Pichávamos as paredes e distribuíamos papéis, algo que na altura era extraordinariamente perigoso, porque a PIDE (Polícia Política Portuguesa) não brincava”, ressaltou Luís Fonseca, lembrando que a PIDE prendeu alguns elementos desse “grupo de agitação”, mas ele ficou em liberdade, talvez por ser ainda muito novo, apenas 17 anos.

Mas, nem por isso esse episódio o fez desistir, já no Mindelo e a estudar no antigo Liceu Gil Eanes, em 1961-1962, deparou-se com a presença de um “reitor fascista” de nome Antero Simões, a que puseram o apelido de “semente de manga” devido a sua fisionomia, que tentava “militarizar” o liceu e força-los a seguir a ideologia fascista e colonialista.

Desta forma, um “catalisador”, que fez a rebeldia dos estudantes desembocar numa grande manifestação.

Pouco depois, Luís Fonseca junta-se ao movimento nacionalista do Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e passa a ser identificado como “elemento perigoso” pela PIDE, que até o impediu de obter um passaporte para continuar os estudos fora do País.

“Nós desenvolvíamos aqui um trabalho de propaganda e de consciencialização para tentar levar a mensagem da necessidade da luta pela independência”, explicou, referindo a camaradas como Dante Mariano, Osvaldo Osório, Carlos Alberto Fonseca, Bernardo Oliveira e Nelson Gomes.

Mas, tarde teria também contacto com Lineu Miranda, o encarregado por Amílcar Cabral para preparar as condições para o desembarque de alguns guerrilheiros da luta armada, que chegou a ser equacionada aqui em Cabo Verde, tendo como base as ilhas de Santo Antão e Santiago.

“Ele contactou-me, porque ficaria em Santo Antão e eu aqui em São Vicente a fazer uma espécie de ligação, particularmente porque nós aqui tínhamos correspondência com a representação do PAIGC em Dakar (Senegal)”, explicou o activista, referindo a este plano que caiu por terra, devido ao “perigo” para a população e à seca.

Entretanto, não faltou consequências, a PIDE descobriu a intenção e prendeu alguns elementos, entre os quais, Lineu Miranda, e Luís Fonseca foi obrigado a esconder-se e fingir uma fuga para fora do País e até ter notícias da prisão da sua esposa, na altura sua namorada.

No final foi preso, pela segunda vez nesse mesmo ano, na cadeia do Fortim Del Rey, em São Vicente, depois enviado para a cidade da Praia e por último ao Campo de Concentração do Tarrafal, com uma sentença final de três anos de prisão.

Mesmo assim, a irreverência continuou e ganhou “impulso” quando ele e os colegas foram colocados na ala dos “Presos de delito comum cabo-verdianos”, onde os guarda-prisionais também eram cabo-verdianos.

“Isso foi muito bom, porque acabámos por desenvolver as nossas actividades e conseguimos despertar a atenção e o sentimento nacionalista de vários guardas e quando saímos de lá já tínhamos vários militantes do PAIGC”, regozijou-se o preso político, que só foi solto em 1973 após a morte de Amílcar Cabral, quando os portugueses pensaram, que “tudo acabaria ali”.

Falsa ilusão, porque Luís Fonseca tornara-se, no caso, responsável político do PAIGC em São Vicente, com participação na tomada da Rádio Barlavento. Seria eleito depois deputado nacional e até o escolhido para ler o texto da proclamação da independência.

Por isso, este combatente, que fez a sua vida profissional como diplomata, garantiu ser com “muito orgulho”, que comemora mais um aniversário da independência, em que teve uma participação tão activa, da qual não se arrepende “nem um pouco”, mesmo com as mazelas sociais e familiares.

“Cabo Verde neste momento está a percorrer um caminho e enquanto País e como povo tem qualidades para atingir a prazo os objectivos principais que moveram a tomada da independência. Agora, compete às próximas gerações fazer tudo para conceder a felicidade a esse povo”, concretizou.

LN/CP

Inforpress/Fim

 

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