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Independência/43 Anos: “Hoje Cabo Verde está pior do que na era colonial” – Fernando Tavares

Assomada, 06 Jul (Inforpress) – O combatente da Liberdade da Pátria, Fernando dos Reis Tavares, considera que hoje, Cabo Verde está “pior” do que na era colonial, e que a situação é “muito mais difícil”, afirmando que o arquipélago “regrediu” em muitos sectores.

Fernando Tavares, que abraçou a luta pela libertação nacional e que a coordenou em Santa Catarina ainda jovem, com 17 anos, foi preso durante três anos no ex-Campo de Concentração do Tarrafal (1968-1971). Fez estas considerações numa entrevista exclusiva à Inforpress, a propósito dos 43 anos da independência de Cabo Verde, aniversário assinalado esta quinta-feira, 05 de Julho, em todo o país.

Para sustentar as suas afirmações, Toco, como é também conhecido, explicou que tudo isto deve-se à “forte” entrada do “neo-colonialismo” a partir de 13 de Janeiro de 1991, altura em que “foram vendidas” todas as empresas do Estado, conseguidas através de parceiros internacionais no tempo do “partido único”.

“Antes tínhamos aviões que voavam para as ilhas da Brava, Fogo (Mosteiros) e Santo Antão. Chegámos a ter em Cabo Verde, em cada ilha um barco, porque somos um país arquipelágico e chegamos a ter dez barcos que faziam o percurso Europa/América. Hoje os temos?”, questionou, apontando o sector marítimo e aéreo como exemplos de sectores em que o país “regrediu” após a abertura política.

Segundo ele, o país que sofreu com a fome de 1947 e que procurava “sair da fome”, tinha na altura a EMPA (Empresa Pública de Abastecimento), uma agricultura em pleno desenvolvimento com agentes do Ministério da Agricultura para ajudar a população no cultivo para rendimento, uma empresa de transformação de carne de porco em Santa Cruz, bancos comerciais, a EMEC (Empresa de Construção), uma empresa de combustíveis (ENACOL) e de telecomunicações.

Conforme explicou o ex-combatente, hoje, algumas empresas foram extintas e outras estão “nas mãos de portugueses”, referindo-se às privatizações, razões que o levam a afirmar que está convencido de que Cabo Verde “regrediu”.

Instado a fazer uma radiografia da governação do país, Fernando Tavares, que ajudou na sua construção, considerou-a de “desgraçada”, sustentando que a mesma não vai ao encontro dos ideais que ele e os demais colegas “abnegados” que lutaram e entregaram as próprias vidas defenderam.

É que, segundo ele, actualmente, a governação tem beneficiado apenas empresas portuguesas que lucram cá e levam os lucros para Portugal, ao contrário de outrora. Nesses outros tempos, sustentou, os trabalhos eram feitos pelo próprios cabo-verdianos, cujo rendimento servia para o sustento da família e para o desenvolvimento das ilhas.

Falando da democracia em Cabo Verde, Fernando Tavares afirmou: “A invocação da democracia foi uma forma encontrada para enganar o povo, porque eles [MpD – no poder] eram agentes de Salazar. Tendo em conta que o Salazar não gostava da nossa bandeira e do nosso hino, entraram no poder e acabaram com todos os símbolos da República”.

“Cabo Verde desde a sua génese até o dia de hoje teve amigos e inimigos. No Tratado de Tordesilhas de 1494 todas as pessoas que lá estiveram eram todas inimigas de Cabo Verde”, disse, sustentando que prova disso é que em 1975, com a independência, o arquipélago não tinha nada e a taxa de analfabetismo rondava os 84 por cento (%).

“Nós dos anos 50 somos a juventude de ouro deste país, porque demos a nossa vida contra um Salazar assassino que matou até o nosso líder máximo [Amílcar Cabral], para ver se acabava com a luta, mas nós continuamos com determinação, de forma que Cabo Verde não continuasse colónia, mas hoje estamos completamente colonizados”, exteriorizou, pedindo “maior envolvimento dos jovens” nas causas do desenvolvimento do país.

Apesar de ter afirmado que Cabo Verde está “pior do que na era colonial”, Toco, que deixou a família em 1968 em Paris (França) para orientar a luta pela libertação de Cabo Verde na “clandestinidade”, em Santa Catarina de Santiago, apontou ganhos a nível de aeroportos (quatro internacionais), portos (sete com equipamentos ‘roll on roll off’) que não existiam. No entanto, questiona se esses equipamentos não virão a ser vendidos como aconteceu com muita empresas estatais.

Barragens, apesar de considerar apenas a de Poilão como a “melhor” e que se encontra seca de momento, Saúde e Educação (mais de 60 liceus e surgimento de universidades) são outros ganhos apontados pelo ex-combatente da Liberdade da Pátria conseguidos durante os últimos 43 anos da independência de Cabo Verde.

O jovem de Santa Catarina que foi para a tropa (Escola de Sargento de Infantaria em Mafra) em Portugal, em Julho de 1961, confessa que apesar de ter tido informações de que havia um movimento na Guiné-Bissau (PAIGC), foi ali que “abriu os olhos” graças aos membros do Partido Comunista Português.

“O Partido Comunista Português era contra o colonialismo, porque entendiam que Portugal tinha as suas fronteiras próprias e não tinha nada a ver com África”, esclareceu, lembrando que em Cabo Verde tinha “informações erradas” daquele partido que também estava a lutar em Portugal por melhor trabalho, salário, assistência médica e medicamentosa a trabalhadores, e diminuição da carga horária na função pública.

“Cabo Verde precisa hoje da Luta da Libertação Nacional mais do que em 1968 ou 1974, porque actualmente o país está muito mais penalizado do que no tempo de Salazar e, é por nós mesmos”, observou Fernando dos Reis Tavares, 78 anos, que aderiu à luta muito jovem e foi preso aos 28 anos.

FM/ZS

Inforpress/Fim

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