Ilha do Sal: Salenses contra venda do “emblemático” Hotel Atlântico

Espargos, 22 Jan. (Inforpress) – As pessoas com quem a Inforpress conversou, na ilha do Sal, dizem-se contra a venda do “emblemático” Hotel Atlântico, situado no coração da cidade dos Espargos, considerado património histórico e cultural da ilha.

Este sentimento foi manifestado hoje quando abordados pela Inforpress, na sequência da resolução nº 178/2020 de 28 de Dezembro, em que o Estado determina a venda do imóvel, em hasta pública, compreendendo que o Hotel Atlântico pode “perfeitamente” ser transformado em espaços para realização de actividades diversas.

Contra a medida, Júlio Rendall, ex-curador de Pedra de Lume recordou que o Hotel Atlântico funcionou como quartel-general da tropa portuguesa, aqui no Sal, conhecido por “Triângulo”, devido ao seu formato, e depois da independência, com a retirada da tropa colonial, e a sua degradação permanente, foi remodelado e aproveitado como hotel, tendo servido a ilha do Sal “num momento crucial”.

“Não havia, praticamente, hotéis nesta ilha, serviu muita gente, muitos passageiros em trânsito no Sal, serviu à Aeroflot e à Cubana que faziam voos regulares para a ilha, em trânsito para a América do Sul e Cuba, e tem servido a muita gente”, recordou, considerando que o edifício do Hotel Atlântico poderia ter sido aproveitado, para uma escola de hotelaria, como pensado.

“Foi um hotel que funcionou muito bem nos seus tempos, com pessoal qualificado, formou muita gente e deveria ou deve ser aproveitado como uma escola em várias valências, como também para valorizar o espaço nobre da cidade dos Espargos”, defendeu, observando que o dinheiro entra, mas “perde-se” as memórias e a identidade histórica.

Para Manuel Portugal, “mais uma vez”, vê-se a transferir para o privado um edifício que faz parte do património e da identidade cultural, neste caso, do Sal, em particular, e de Cabo Verde em geral.

“Creio que devíamos a todo o custo envidar esforços no sentido de preservar, manter e transformar o Hotel Atlântico num espaço que fosse útil para a comunidade. E, por outro lado, não se percebe que um espaço que foi transferido para a Empresa Nacional de Segurança Aérea (ASA), agora o Estado quer vendê-lo…faz-me alguma confusão”, exteriorizou, considerando a importância de a cidade dos Espargos ter um hotel desta dimensão.

Natural do Sal, Aldina Silva de 42 anos disse que é com tristeza que recebe o anúncio da venda do “emblemático” hotel, que “embeleza e valoriza” a entrada da cidade.

“É de facto uma tristeza. Não sabemos o motivo que está por detrás desta decisão, mas o Hotel Atlântico é um monumento histórico que deve ser preservado e nunca vendido, mormente em hasta pública, já que poderá cair em donos que não lhe atribuem o valor sentimental e emocional que o hotel representa para a ilha”, lamentou.

Também para Alcídia Gomes “não é uma boa ideia” vender o edifício quando, “realmente” pode servir à comunidade salense, e como uma unidade turística.

“Recebi esta notícia com algum espanto, atendendo aos projectos que se vinha anunciando para esta unidade hoteleira. Acho que no Sal temos tido essa tendência de desvalorizar o passado, de perder as nossas memórias”, comentou em tom de lamento.

Compreendendo que, havendo “vontade política”, o Hotel Atlântico poderá ser transformado num espaço com outras valências, nomeadamente Museu de aviação, biblioteca, espaços dedicados à promoção da cultura, entre outras actividades, uns e outros apelam à intervenção da Câmara Municipal do Sal, para impedir a venda deste considerado “belíssimo” património histórico e cultural da ilha.

A Inforpress tentou ouvir o presidente da Câmara Municipal do Sal, mas sem sucesso.

SC/ZS

Inforpress/Fim

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
  • Galeria de Fotos