Forças em confronto no Sudão do Sul cometem atrocidades na região de Equatoria – AI

 

Lisboa, 04 Jul (Inforpress) – As forças governamentais e da oposição em confronto no Sudão do Sul têm vindo a cometer atrocidades, incluindo violações, fuzilamentos e assassínios à catanada, na região da Equatoria, indica um novo relatório da Amnistia Internacional (AI).

A AI considera que os crimes de guerra ainda em curso podem vir a transformar esta região do Sudão do Sul conhecida como “o celeiro” da nação (devido aos seus recursos agrícolas) num “terreno de matança”.

“Uma nova frente no conflito do Sudão do Sul forçou centenas de milhares de pessoas a fugir da região fértil de Equatoria no último ano, originando atrocidades, fome e medo”, escreve a AI.

Os investigadores da organização não governamental (ONG) visitaram a região em Junho, recolhendo provas de que as forças governamentais (na sua maioria), mas também forças da oposição, “têm vindo a cometer crimes à luz da lei internacional e outras violações e graves abusos dos direitos humanos – incluindo crimes de guerra – contra civis”.

“A escalada dos confrontos na região de Equatoria levou a uma cada vez maior brutalidade contra civis. Homens, mulheres e crianças foram fuzilados, despedaçados até à morte com catanas e queimados vivos dentro de suas casas. Mulheres e raparigas foram violadas em grupo e sequestradas”, relatou Donatella Rovera, responsável da Amnistia Internacional que regressou recentemente da região.

No relatório “Se os homens forem apanhados são mortos, se as mulheres forem apanhadas são violadas: Sudão do Sul – atrocidades na Região de Equatoria”, a AI diz que estes crimes já levaram à fuga e deslocação de quase um milhão de pessoas, incluindo refugiados que escapam para o vizinho Uganda.

“Casas, escolas, instalações médicas e complexos das organizações humanitárias foram saqueadas, vandalizadas e queimadas por completo. E a comida têm sido usada como arma de guerra”, acrescentou a directora da ONG.

Até agora a região de Equatoria tinha sido poupada à violência do conflito no Sudão do Sul, que começou em 2013 na sequência de confrontos entre elementos do Exército Popular da Libertação do Sudão (SPLA), leal ao presidente Salva Kiir, e elementos afectos ao então vice-presidente Riek Machar.

No entanto, em meados de 2016 a situação mudou, com as forças de ambos os lados a tomarem posições em Yei, uma cidade estratégica (com cerca de 300 mil pessoas) a 150 quilómetros a sudoeste da capital, Juba, na rota comercial para o Uganda e para a República Democrática do Congo.

A Amnistia Internacional considera que as forças da oposição, apesar de também terem cometido graves crimes, fizeram-no a escala menor do que as forças governamentais.

Testemunhas oculares em aldeias próximas de Yei relataram à AI que as forças governamentais e milícias aliadas mataram civis de forma descriminada: num ataque a 16 de Maio último, soldados apanharam 11 homens ao acaso na aldeia de Kudupi, no condado de Kajo Keji, forçaram oito deles a entrar numa cabana, trancaram a porta e deitaram-lhe fogo.

Seis deles morreram no local – dois queimados e quatro atingidos a tiro ao tentar fugir, relataram vários sobreviventes à Amnistia.
Joyce, mãe de seis filhos aldeia de Payawa, a sul de Yei, descreveu a forma como o seu marido e cinco outros homens foram assassinados num ataque semelhante a 18 de Maio.

“Foi a quinta vez que a aldeia foi atacada pelo exército. Nos primeiros quatro ataques, roubaram, mas não mataram ninguém. Costumavam aparecer, detinham pessoas, torturavam-nas e roubavam coisas. (…) também detinham raparigas novas, violavam-nas e depois libertavam-nas. [Violaram] a sobrinha do meu marido, Susie”, relatou.

Lusa/Fim

 

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