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ENTREVISTA: Poeta José Luiz Tavares lança “Contrabando de Cinzas” em Cabo Verde e anuncia novos projectos

 

Cidade da Praia, 09 Jun (Inforpress) – O novo livro de José Luíz Tavares, “Contrabando de Cinzas”, será lançado no país, em finais de Junho, no âmbito das celebrações dos 50 anos do poeta, confirmou à Inforpress o autor que já se encontra no arquipélago.

Em declarações à Agência Inforpress,  José Luíz Tavares adiantou que o livro, apresentado já no Brasil,   será dado a conhecer ao público cabo-verdiano a 30 de Junho, na sede do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), na Cidade da Praia.

A apresentação da obra será feita pela professora universitária Fátima Fernandes, cuja tese de dissertação, apresentada ao programa de pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,  em 2016, incidiu sobre as obras de José Luíz Tavares, João Varela (Vário) e Corsino Fortes.

Referindo-se a “Contrabando de Cinzas”, José Luíz Tavares explicou que a obra, um volume de cerca de 300 páginas, apresenta-se como uma “revisitação e súmula da sua poesia édita e inédita”, exceptuando aquela escrita para neo-leitores jovens e adultos, e a que está escrita em língua cabo-verdiana.

“O cuidado orgânico que coloco na arrumação dos meus livros fez com que resultasse numa obra de grande coerência, que até me surpreendeu quando o vi em papel. Não estarei a exagerar se disser que este é o meu melhor livro dado à estampa até à presente data”, acrescentou.

O poeta, a viver em Lisboa, e que completa neste sábado 50 anos, admitiu que,  embora a sua obra esteja ainda “em progressão”, tem imprimido “uma marca forte” ao nível do trabalho da linguagem e um “conceptualismo e construtivismo pioneiros” na literatura cabo-verdiana, e “largamente original”, em comparação com fazeres poéticos doutras paragens da língua portuguesa.

“Se olharmos especificamente para a África de língua portuguesa, é até um movimento reverso, fugindo ao riobaldismo facilitista que hoje faz o esplendor do supermercado das letras afro-lusógrafas”, observou.

Para além de “Contrabando de Cinzas”, José Luíz Tavares anunciou que, para este ano, que comemora meio século de vida, vai editar “Polaróides de Distintos Naufrágios” e “Rua Antes do Céu”, dois livros de poemas, de “inventada matéria biográfica”.

O primeiro, explicou,   é de natureza “mais visceral” e o segundo de cariz “mais ontológico”, ambos, porém, segundo suas palavras,   sobre a “precariedade do existir, da transitoriedade da glória e da necessidade do testemunho”.

Estes dois livros serão lançados durante o festival de literatura-mundo, que decorrerá na ilha do Sal,  de 06 a 09 de Julho.

Para Outubro, o poeta diz estar planeada a saída duma antologia organizada por amigos, que deveria ser constituída por cinquenta poemas para os seus cinquenta anos, mas  que a malta amiga resolveu escolher 100 poemas, com o pretexto de que “quando fizer os cem já cá não estarão para fazerem-me nova antologia”.

Para a mesma altura,   está programada, igualmente, a saída duma colectânea que recolhe o conjunto das entrevistas do poeta e os textos,  de mais diversa índole,  que foi escrevendo nesses últimos anos.

De acordo com José Luíz Tavares, deverá sair ainda o livro de poemas inéditos em língua cabo-verdiana, e um livro para neo-leitores jovens e adultos.

“Como vê é muita fruta. Haja bocas e dentes rijos para desfrutá-la”, disse.

Para chegar a estes resultados, sendo o mais fecundo e mais premiado escritor cabo-verdiano, José Luíz Tavares não nega que o trabalho “consciente e abnegado” dá sempre os seus frutos.

O autor de “Paraíso Apagado por um Trovão”  sublinhou, porém,   que  às vezes é necessária a conjugação de determinados factores exógenos que o escritor não domina, como a crítica, os prémios, as teses, todos esses “mecanismos de legitimação” que podem, segundo explicou,   ser muito “flutuantes, quando não passando mesmo ao lado daquilo que poderia constituir-se como a centralidade de um tempo”.

Questionado se a publicação em Cabo Verde de “Contrabando de Cinzas” poderá ser considerada um “acontecimento” literário e editorial do ano,   o autor de “Agreste Matéria Mundo” diz preferir deixar “esse juízo a outros”, ainda que esses outros,  destacou,   “nem sempre estejam à altura de emitir juízos válidos” sobre a obra do poeta tarrafalense.

“Temos o exemplo da argumentação (ou uma missa negra, como lhe chamou certo amigo meu) que o júri do prémio Mário Fonseca produziu a propósito do meu Livro Lisbon Blues.

Ciente “das coisas que a nossa lustrosa academia pode parir”, José Luíz Tavares lembra que fez publicar o “magnífico texto” de apresentação do António Cabrita no festival literário de Óbidos num jornal da praça, mas que “não serviu de nada – ousaram à mesma”.

“Aprendi a confiar mais no juízo do leitor comum do que nas faladuras da nossa patusca Academia”, rematou, observando que em Portugal, onde reside, e no Brasil, país onde tem ido com regularidade, a  recepção crítica dos seus livros tem andado entre um “contínuo espanto, até demorados equívocos”.

“Os equívocos estão relacionados com uma conceptualização pobre, originária de certos sectores dos estudos culturais (nem todos, faça-se justiça), de gente com pouca cultura teórica ou oriunda de domínios mais densa, como a Filosofia, e de ainda uma menor cultura e convívio com a grande poesia de vário tempo e lugar”, disse.

Reconheceu haver, porém, “excepções notáveis”, citando os casos de Pires Laranjeira e  Rui Guilherme,   que têm lido os seus livros com “uma acuidade, inteligência e sensibilidade raras.

“Rui Guilherme é o autor de uma notável tese sobre mim, o Vário e o Arménio, que urge conhecer e publicar em Cabo Verde, e também no Brasil, onde às vezes os estudos sobre autores cabo-verdianos são muito superficiais, rondando por vezes a banalidade”, afirmou.

Relativamente a Cabo Verde, diz que no arquipélago não existe crítica literária ou cultural informada e sistemática.

“Um livro de José Luiz Tavares, Mário Lúcio ou José Luís Hopffer Almada e o de qualquer principiante ou poeta popular, desde que ambos apareçam nos media, estão no mesmo patamar”, disse, sublinhando que as “pessoas estão demasiado ocupadas a regurgitar a baba e o fedor do sectarismo político para dar atenção ao que traz novas do sublime e do perene, ou que simplesmente alarga o âmbito do humano”.

À pergunta se tem dificuldade em encontrar um nome de um cabo-verdiano que possa merecer, dentro de uma década, o Prémio Camões, não hesitou:

“É claro que não tenho dificuldades em encontrá-lo. Dizê-lo é que não posso, porque senão cairia neve no monte Graciosa. Mas pode perguntar ao Arménio Vieira, que é abalizado e também é insuspeito, por já tê-lo ganho, e por isso ninguém vai pensar que esteja a fazer o jogo do mata. Eu próprio, agora que estou no júri, proporia um dos nossos, não fosse a questão da rotatividade estabelecida para a sua atribuição”.

José Luiz Tavares nasceu em 10 de Junho de 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, tendo estudado Literatura e Filosofia em Portugal, onde reside desde há quase 30 anos.

Publicou “Paraíso Apagado por um Trovão (2003); “Agreste Matéria Mundo (2004); “Lisbon Blues seguido de Desarmonia” (2008); Cabotagem&Ressaca (2008); “Cidade do Mais antigo Nome” (2009); “Coração de lava” (2014); “Contrabando de Cinzas” (2016).

Por estas obras, já foi distinguido por diversas vezes, tendo ganhos os prémios, entres outros,  o de Revelação Cesário Verde-CMO 1999; Mário António-Fundação Calouste Gulbenkian (2004); Jorge Barbosa-Associação de Escritores Cabo-Verdianos (2006); Pedro Cardoso -Ministério da Cultura de Cabo Verde (2009) e Cidade de Ourense (2010).

Por três vezes consecutiva, 2008, 2009, 2010, recebeu o Prémio Literatura para Todos,  do Ministério da Educação do Brasil.

Os seus livros estão traduzidos para inglês, espanhol, francês, italiano, catalão, finlandês, russo, mandarim e galês.

JMV/AA

Inforpress/Fim

 

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