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ENTREVISTA: Poeta José Luiz Tavares acusa Governo de ter eliminado os “bem sucedidos” programas experimentais de ensino bilingue

*** Por José Maria Varela, da Inforpress ***

Lisboa, 07 Jun (Inforpress) – O poeta José Luiz Tavares acusou hoje o governo cabo-verdiano de ter eliminado “criminosamente” os “bem sucedidos” programas experimentais de ensino bilingue que decorria em diferentes regiões do País, e com perspectivas de serem alargados.

“Gostaria que num momento em que a pressão social para a oficialização plena e em paridade com a língua portuguesa oficializada (que não oficial, que para mim a língua oficial é o cabo-verdiano), ainda que a contragosto da cobardia e da manha e da actuação negligentemente criminosa dos políticos, o Governo do meu país tivesse um programa de enquadramento para a tradução de grandes clássicos doutras línguas”, adiantou.

O mais premiado escritor cabo-verdiano disse, porém, que esta deve ser uma ilusão da sua cabeça.

“De um governo que eliminou criminosamente os bem sucedidos programas experimentais de ensino bilingue que decorria em diferentes regiões do país, e com perspectivas de serem alargados, esse mesmo governo que quando comunica em cabo-verdianho por escrito fá-lo numa garatuja clandestina violando as suas próprias leis e resoluções soberanas, como eu dizia, de um tal governo nada de positivo, no que concerne à língua cabo-verdiana, se deve esperar”, vincou.

José Luís Tavares falava em entrevista à Inforpress, a propósito do lançamento, nesta terça-feira, no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, da edição bilingue do poema “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, revertido para a língua cabo-verdiana pelo poeta.

Para o escritor, “os direitos de cidadania linguística, que são direitos humanos básicos”, não podem ser, no entanto, “postergados ou denegados”, sejam quais forem “os peões internos e as forças externas que se opõem à dignificação de direito (para ser plena) da língua cabo-verdiana”, considerando que o arquipélago vive “ politicamente numa espécie de “esquizoglossia”, isto é, “esquizofrenia linguística”.

“Senão vejamos: o MpD, partido que mais terá feito pelo avanço institucional da língua cabo-verdiana, nos seus dois primeiros governos, no início do multipartidarismo em Cabo Verde, quando passou à oposição bloqueou todas as iniciativas nesse sentido”, denunciou.

“E quando regressou ao poder”, elucidou, “praticou, através da ministra de Educação de má memória, esse acto de quase glotocídio, que foi a eliminação pura e simplesmente  do já citado programa experimental de ensino bilingue”, afirmou,  lembrando  que o projecto deu “bons frutos”  em portugal, em turmas compostas por alunos de múltiplas proveniências linguísticas”.

“O PAICV, partido que, supostamente, por razões ideológicas, seria mais favorável à oficialização, sempre que esta questão se coloca, é do seu interior que emergem as principais forças de resistência, conotados com certos sectores geograficamente muito bem localizados, sendo um dos seus principais arautos um antigo ministro do regime do partido único”, denunciou.

“Mas não se pasmem”, retorquiu, “sempre no mesmo jornal afecto à força política contrária, que também não se coíbe de dar voz aos portugueses que acham que ainda mandam em Cabo Verde, como um certo Morais Sarmento e, mais recentemente, uma historiadora  que disse coisas gravosas e sem qualquer correspondência com a verdade”.

Para José luiz Tavares, ainda que tais considerações fossem verdade, em Cabo Verde deveriam “mandar os cabo-verdianos”.

“Não me consta que os cabo-verdianos vão a Portugal opinar sobre a política linguística do Estado português e onde a língua se encontra num estado bastante miserável. Será a língua cabo-verdiana a culpada disso?”, questionou.

O poeta afirmou que a sua esperança  é que os dois principais candidatos às próximas eleições presidenciais, que sobre esta questão já tiveram “posições muito firmes e claras”,  façam dela o principal ponto do seu programa.

José Luiz Tavares quer que o próximo Presidente da República “pressione fortemente” o Governo e “chamando à pedra” os partidos políticos, no sentido da materialização do que está na Constituição e na lei de bases do ensino, cumprindo um dos “mais basilares direitos humanos”, que é o direito a aprender a língua materna e poder utilizá-la em todas as esferas da vida”.

Quanto a este último aspecto, entende que os tribunais cometem todos os dias “abuso de poder”,  mandando traduzir depoimentos prestados em língua cabo-verdiana.

“Pergunta-se: os juízes, procuradores, advogados, não dominam a língua cabo-verdiana?”, questionou, defendendo que os cabo-verdianos devem passar a invocar o direito à resistência, não assinando nem reconhecendo como suas declarações prestadas na língua do território, como a define a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos adoptada pela Unesco em 1996, e traduzida por  ele para língua cabo-verdiana há dois anos.

Para José luiz Tavares não “é com supostas visões” de superioridade linguística de “gente apegada a um passado que fantasiam glorioso”, ou com a “intolerância de certos alucinados do futuro” que se constrói a “pátria plural do bilinguismo”.

“É connosco os impenitentemente crioulófonos, nós os resolutamente lusógrafos, com o nosso espírito bailando entre duas (ou mais) bandeiras linguísticas que o bilinguismo efectivo trilhará as estradas do futuro”, vincou, indicando ter o seu projecto particular de tradução para os próximos dez anos.

Depois da tradução para a língua cabo-verdiana dos sonetos de Camões, José Luiz Tavares apresenta esta terça, em Lisboa, a edição bilingue da Ode Marítima, de Fernando Pessoa, considerado, ao lado de Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal.

José Luiz Tavares nasceu a 10 de Junho 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde. Estudou literatura e filosofia em Portugal, onde vive.

Entre 2003 e 2020 publicou catorze livros espalhados por Portugal, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Colômbia.

Recebeu uma dezena de prémios atribuídos em Cabo Verde, Brasil, Portugal e Espanha, sendo o autor cabo-verdiano mais premiado de sempre. Não aceitou nenhuma medalha ou comenda, até agora.

Traduziu Camões e Pessoa para a língua cabo-verdiana. As obras do poeta estão traduzidas para inglês, castelhano, francês, alemão, mandarim, neerlandês, italiano, catalão, russo, galês, finlandês e letão

JMV

Inforpress/fim

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