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ENTREVISTA: Embaixador M’bála Fernandes diz partir com sentimento de missão cumprida (c/vídeo)

*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 24 Jul (Inforpress) – O embaixador bissau-guineense M’bála Fernandes termina a sua missão em Cabo Verde, depois de três anos, e diz partir com o sentimento de missão cumprida e que contribuiu para “mudar a forma de relacionamento entre os dois países”.

“Quebramos o antigo paradigma da Guiné-Bissau ser representada em Cabo Verde através da sua embaixada em Dacar [Senegal] e Cabo Verde representado em Bissau através da sua embaixada em Dacar”, lançou o diplomata M’bála Fernandes, em entrevista à Inforpress.

Segundo ele, a forma de relacionamento entre os dois países deixou de ser apenas por ocasião de “grandes debates” nos foros internacionais.

“Significa que hoje qualquer que seja a candidatura, de um guineense ou de um cabo-verdiano, não passa nos corredores das reuniões e, passa sim, de uma forma bilateral entre as duas embaixadas”, indicou, acrescentando que com a abertura das respectivas embaixadas se conseguiu-se um elo de interlocutor para as diplomacias dos dois países.

A visita de Jorge Carlos Fonseca a Guiné-Bissau e a de Umaro Sissoco Embaló a Cabo Verde, na perspectiva de M’bála Fernandes, representam um “grande ganho na reaproximação” dos povos dos respectivos países.

“Assinámos vários acordos e está prevista uma comissão mista para rever mais de quatro dezenas de acordos e memorandos existentes, que terão que ser readequados à realidade actual”, defendeu, concluindo que no plano político-diplomático os dois países estão num patamar acima da média.

No plano cultural e histórico, advogou, os povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde não estão ligados apenas por laços políticos, mas também por uma simbiose cultural e de consanguinidade.

“Esta consanguinidade, estribada neste laço familiar e social, acabou por sedimentar com as nossas independências dirigidas pelo Amílcar Cabral, o líder fundador das nossas duas nacionalidades”, declarou o embaixador M’bála Fernandes, que afirmou que durante a sua missão no arquipélago tentou “descobrir a historiografia da Guiné-Bissau e Cabo Verde, com maior fundamento na luta de libertação nacional”.

“Visitámos e fizemos passar a ideia de que os antigos combatentes são das duas pátrias. Não houve nenhuma data da Guiné-Bissau que não fosse aqui assinalada por nós, para demonstrar que identidade una das nossas lutas ainda se mantém intacta e deve ser preservada”, admitiu ainda.

Relativamente à comunidade bissau-guineense em Cabo Verde, informou que esta mereceu a sua “maior atenção”, tendo trabalhado, segundo ele, desde a primeira hora, com as associações de imigrantes do seu país, com as quais aprendeu que tinham de desenvolver um trabalho em conjunto.

Reconhece, entretanto, que as autoridades cabo-verdianas têm sido “mais flexíveis em relação à comunidade guineense”.

“Ainda muitos estão à margem daquilo que se diz da legalidade, mas reconheço que há um esforço da parte do Governo em tentar legalizar e flexibilizar o processo de aquisição da documentação aos guineenses”, reconheceu.

Conforme enfatizou, não tem conhecimento de nenhum guineense que tenha sido deportado ou ameaçado por falta de documento.

“Naturalmente, temos pessoas que, por não terem documento, podem não aceder a outros trabalhos, mas são casos muito esporádicos”, asseverou, adiantando que isto para ele é “motivo de alegria”, além de demonstrar que as relações com as autoridades nacionais têm sido boas.

No campo da diplomacia económica, ressaltou que fez tudo para que as empresas cabo-verdianas fossem à Guiné-Bissau desenvolver negócios, nomeadamente no sector de medicamentos, das tecnologias de informação e comunicação, através do Núcleo Operacional para a Sociedade de Informação (NOSI) e da vinicultura.

Para M’bála Fernandes, sem meios de transportes directo, sobretudo marítimos, será difícil os intercâmbios comerciais, mas a visita do chefe de Estado Sissoco Embaló a Cabo Verde abriu as perspectivas de a empresa de transportes marítimos Interilhas ir para a Guiné-Bissau.

Em seu entender, a instalação desta empresa cabo-verdiana no seu país vai contribuir para “aliviar o sofrimento” dos guineense que morrem afogados nas viagens entre as ilhas, por causa das pirogas que não oferecem as condições técnicas para o efeito.

À pergunta se parte com o sentimento de missão cumprida, respondeu: “Não podemos dizer que cumprimos a 100 por cento. Fizemos o que esteve ao nosso alcance e ao que a conjuntura nos foi favorável. Podíamos fazer mais, mas a conjuntura da pandemia de covid-19 e outras de natureza política, económica e social não nos permitiram cumprir a 100 por cento o que desejaríamos”.

“Cabe, porém, a cada um dos guineenses e cabo-verdianos, que acompanharam a nossa tarefa aqui, ajuizar, analisar e pronunciar-se sobre o que deve fazer a embaixada para melhorar o que fizemos”, apelou M’bala Fernandes.

No final da missão, foi condecorado pelo Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, com a medalha de mérito.

“Esta distinção simboliza não apenas o trabalho de M’bála Fernandes, mas sim de toda a embaixada e de toda comunidade guineense em Cabo Verde”, apontou M’bála Fernandes.

“É, também, o trabalho dos sucessivos ministros que passaram na Guiné-Bissau, principalmente da actual que depositou muita confiança em mim”, afiançou, sem se esquecer dos Presidentes da República, quer de Cabo Verde, quer da Guiné-Bissau, que lhe abriram as portas para que pudesse trabalhar em prol do desenvolvimento das relações entre os dois países.

Enalteceu, igualmente, o papel dos órgãos cabo-verdianos da comunicação social na divulgação das actividades da embaixada.

“Sem vocês [os jornalistas], talvez não teriam sabido se estávamos a trabalhar ou não”, apontou o primeiro embaixador guineense residente na Praia.

Depois de Cabo Verde, M’bála Fernandes vai chefiar a missão diplomática do seu país no Brasil. No seu lugar vem Basiliana Hopffer Tavares.

“Digo do fundo do meu coração que deixo saudades em Cabo Verde. Não fui um embaixador de gabinete”, referiu, afiançando que o arquipélago fica no seu coração e despede-se com estas palavras: ”Até um dia!”.

LC/CP

Inforpress/Fim

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