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“Desastre da Assistência deixou marcas e recordações impossíveis de apagar com o tempo” – testemunha (c/áudio)

*** Por Carmen Martins, da agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 20 Fev (Inforpress) – Pedro Oliveira, 87 anos, residente no bairro de Achada Grande Frente, é peremptório: os períodos de fome foram os piores momentos da história do país e o Desastre da Assistência deixou “marcas” e “recordações tristes” que jamais serão esquecidas.

A 20 de Fevereiro de 1949, com efeito, a Cidade da Praia viveu o dia considerado por muitos dessa época como o  “mais trágico” com a queda do paredão do edifício dos Serviços Cabo-verdianos de Assistência, que ceifou a vida de centenas de pessoas que aguardavam a distribuição de refeições quentes, devido ao “severo período de fome” que se viveu nos diferentes pontos do País.

No dia em que se assinala 70 anos do Desastre da Assistência, a Inforpress foi conhecer a história de Pedro Oliveira, carinhosamente conhecido como Perninhas, sobre esse dia, que, aos 87 anos, conserva ainda as memórias do dia em que a Cidade da Praia chorou a maior perda da sua história.

Conforme contou, nasceu no interior da ilha de Santiago num período em que a crise, seca e fome eram vividos por todos os cabo-verdianos.

Com dois meses de idade a família mudou-se para a Cidade da Praia, tendo nessa altura se instalado no bairro da Achada Grande Frente.

A alcunha Perninhas, segundo lembra, foi-lhe atribuído quando anos mais tarde, trabalhando nas roças de São Tome e Príncipe, certo dia, participando numa tocatina, um senhor olhando para ele enquanto tocava um instrumento musical  exclamou: “olha umas perninhas a tocar tão bem”, lembrou com sorriso nos lábios, por ter sido sempre muito magro, afirmando que a partir desse dia esse passou a ser o seu nome.

Mas voltando no tempo das amarguras e sofrimento, como disse, considerou o período de fome como os piores momentos da história de Cabo Verde, porque não havia água, chuva, comida e nem roupa, sublinhando que as fomes de então não eram “fomes de alimento” mas sim  “fomes que doíam na alma”.

Descrevendo o local do desastre, disse que foi um espaço mal concebido com poucas condições de segurança e que todos os dias as pessoas que não tinham o que comer beneficiavam de pelo menos uma refeição quente, acrescentando que não era permitido ninguém levar comida para casa.

“Morriam muitas pessoas todos os dias e o número de mortes era desanimador porque quando normalmente morre uma pessoa, a família enlutada recebe apoio e consolo de familiares, vizinhos e amigos, mas nessa altura ninguém podia apoiar ninguém, cada um ficava com o seu cadáver em sua casa e rezava pela sua alma porque eram muitas mortes”, revelou.

No entanto, o dia 20 de Fevereiro para este octogenário foi o dia “mais triste” da sua vida porque perdeu a mãe, que foi uma das vítimas do Desastre da Assistência, que, conforme lembra, na esperança de beneficiar de alguma refeição ou doação de roupas veio a morrer deixando dois filhos jovens para trás.

“Estive no local do acidente, mas só minutos depois de a parede ter caído eu e o meu irmão fomos à procura da nossa mãe, mas ela já estava debaixo dos escombros”, contou, lembrando que ela não sofreu nenhum ferimento e não faleceu no local, mas morreu horas depois na casa mortuária “segurando o seu tabaqueiro”.

Pedro Oliveira asseverando que o número de cadáveres era tanto que os homens, “sem forças e desesperados”, fugiam para não ter que enterrar as vítimas.

“Para conseguir com que as pessoas ou os homens ajudassem a enterrar os mortos, muitas vezes eram chamados os policiais que obrigavam as pessoas a ajudar no enterro”, contou, ajuntando que foi um dia “tão triste” que, após a queda do paredão, começaram a caíram gotas de chuvas que há muito tempo não davam sinal, confirmando assim o sofrimento do povo.

Depois desse dia trágico, indicou, os responsáveis começaram a oferecer milho às pessoas para confeccionarem alimentos nas suas casas, ressaltando que após esse incidente “as coisas foram melhorando” e Cabo Verde começou a receber ajudas internacionais.

Pedro Oliveira, pai de oito filhos, como muitos dos cabo-verdianos, devido às condições do País na altura, emigrou para São Tomé e Príncipe onde permaneceu durante nove anos, tendo durante esse período regressado e emigrado novamente para lá, trabalhar nas roças, isto em 1951, dois anos após o Desastre da Assistência.

Questionado qual a análise que faz do país 70 anos depois, disse que as coisas actualmente estão “bem melhores”, que as condições de vida dos cabo-verdianos “evoluíram muito” e que espera, “quase convicto”, que o que se viveu no passado “nunca mais voltará a acontecer”.

“É claro que as dificuldades existem, temos pessoas a viver em péssimas condições,  mas sei também que não passam nem a metade do que vivemos, os tempos mudaram (…) e hoje em dia  os cabo-verdianos não passam fome, passam necessidade”, afirmou.

Lamentou, por outro lado, que a história não tenha sido “tão divulgada e nem valorizada”, realçando que há um “total silêncio” e “falta de conhecimento” por parte de muitos cabo-verdianos desses períodos que, sustentou, marcaram eternamente   aqueles com esperança de dias melhores e alguma sorte conseguiram sobreviver a esses tempos.

“Os jovens hoje vivem como querem, fazem o que querem e vivem uma época feliz e nem sequer conseguem imaginar esses períodos horríveis da nossa história”, lançou, concretizando que lembrando das sucessivas fomes, sempre pede a Deus que ajude as pessoas e que “não falte o essencial” para que as crianças e jovens tenham sempre uma vida “recheada de coisas boas”.

“Com desafios e dificuldades, sim, mas que sejam de acordo com as suas capacidades de resistência”, concluiu Pedro Oliveira.

O Desastre da Assistência ocorreu há 70 anos, ou seja a 20 de Fevereiro de 1949, matando centenas de pessoas que aguardavam pela distribuição de refeições quentes e de algum donativo que lhes permitisse se alimentarem.

À Cidade da Praia chegavam centenas de pessoas para se juntarem a outras tantas na mesma situação de pobreza e de carência alimentar, sobretudo crianças e mulheres.

Foram estas a maior parte das mais de 232 vítimas mortais resultantes da queda do paredão do edifício dos Serviços Cabo-verdianos de Assistência, onde diariamente se reuniam mais de duas mil pessoas para receberem uma refeição quente e alguns donativos em alimentos.

Os mortos foram sepultados em valas comuns no Cemitério da Várzea, dado à exiguidade de tempo e carência em material necessário para a confecção de caixões como tecido e madeira, entre outros.

Para perpetuar este “triste acontecimento”, em meados da década de 2000 construiu-se junto à rampa do cais de São Januário, na zona da Gamboa que liga esta zona à Avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria, a poucos metros do local onde se deu a tragédia, um monumento de homenagem às vítimas.



CM/AA

Inforpress/Fim

 

 

 

 

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