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Covid-19/Um Ano: “No início foram dias agitados até esquecíamos o que era comer e beber” – directora do HBS

*** Por Américo Antunes, da Agência Inforpress ***

Mindelo, 15 Mar (Inforpress) – Passa um ano, mas Ana Brito, directora do Hospital Baptista de Sousa (HBS), tem bem presente os momentos mais agitados, nos inícios de 2020, quando surgiu um vírus desconhecido, que virou do avesso as rotinas hospitalares.  

“Foram momentos de muita tensão, não sabíamos o que aí vinha, horas intermináveis de trabalho, fins-de-semana incluídos, até esquecíamos o que era comer e beber”, recorda a médica.  

A directora do HBS recebe a Inforpress no seu gabinete para uma “radiografia” de como o hospital (con)viveu com este primeiro ano de pandemia, numa manhã de sexta-feira, minutos depois de cumprir uma rotina, prestes a completar um ano, de uma reunião diária do designado gabinete de crise da covid-19. 

“Hoje, realmente, a postura tanto dos profissionais da saúde como da população é bastante diferente, há uma maior segurança, há mais estudos, mais evidências”, diz, cautelosa, quando perguntada se um ano depois já se pode falar de serenidade, de alguma confiança. 

Mas, nem sempre foi assim, e Ana Brito puxa o filme para trás para recordar os dias, no início de Março do ano passado, quando se pensou que o escritor Germano Almeida tinha contraído a covid-19. 

“Foi o nosso primeiro internado como investigação, mas os testes vieram todos negativos, afinal não passou de uma gripe, num contexto que nos preocupou bastante”, recorda.

Um outro momento de tensão, agora em finais de Março de 2020, ocorreu quando veio a confirmação do PCR da senhora de origem chinesa, a primeira doente covid-19 em São Vicente, cujo teste positivo foi anunciado no dia 03 de Abril de 2020.

Ana Brito tem na memória que “felizmente correu muito bem”, no sentido de que os profissionais de saúde não ficaram infectados, porque já nessa altura tinham formação e modificado o comportamento dentro do hospital, com o uso de equipamento de protecção individual, tanto na urgência como no Serviço de Medicina, onde a paciente ficara internada em observação, “numa box, isolada”. 

“Dias agitados, mas um aprendizado para a vida”, sintetiza Ana Brito.  

Quanto à maratona que se iniciou no hospital, a directora recorda que em finais de Dezembro/inícios de Janeiro de 2020 surgiram algumas notícias da China sobre o novo coronavírus, ao mesmo tempo que recebiam as primeiras informações, porque a Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta, faz o alerta aos países “muito mais cedo do que as pessoas pensam”. 

Por isso, em Janeiro, o HBS já tinha formações prontas a ministrar, que se iniciariam em finais de Janeiro/inícios de Fevereiro, primeiro destinadas ao pessoal de saúde, desde ajudantes de serviços gerais e maqueiros até aos médicos, com todas as informações emanadas, também, da Direcção Nacional de Saúde (DNS).  

“Fizemos igualmente articulações com bombeiros, polícia, Delegacia de Saúde e outras intervenientes, porque isto tem que ser multidisciplinar, são vários sectores a trabalhar para o mesmo fim. Os profissionais de saúde sozinhos não conseguiriam”, lembra a directora do HBS.

Conforme explica, todas as medidas de segurança adoptadas no hospital desde o início, como o uso correcto do equipamento de protecção individual, a mudança dos circuitos internos, a obrigação de testes rápidos, inicialmente de anticorpos e actualmente de antigénios que é “muito mais específico”, e de testes moleculares antes de qualquer internamento ou intervenção, evitaram a infecção dos profissionais do hospital pelo SARS CoV2 e a infecção cruzada entre os doentes.

Ana Brito enfatiza o facto de se ter introduzido melhorias na segurança dentro do hospital, diminuindo a circulação interna de utentes nas visitas e nas consultas, aspecto que veio diminuir a possibilidade de infecção dentro do próprio hospital. 

 “Os profissionais de saúde e todos que estiveram envolvidos engajaram-se muito bem, continuam bastante engajados e realmente resultou”, elogia.

Para além da formação com muitas acções práticas e feitura de vários protocolos consoante a actividade realizada por cada profissional, houve uma componente de reorganização do próprio hospital.  

“Começamos por planear os cenários A, B e C, na demanda dos doentes, em que no primeiro a prioridade foi encontrar uma enfermaria onde investigar e isolar, que seria a ala dos quartos particulares”, recorda, seguida da reorganização tanto do banco de urgência de adultos, como o da pediatria.  

O espaço hospitalar ficou diferente, diz, houve alturas em que foram montadas tendas no exterior dos bancos de urgência para atender adultos, de um lado, e crianças, do outro, mas, considerou, consoante a evolução da pandemia, dos conhecimentos e de maior organização, conseguiu-se uma estrutura mais interna que neste momento satisfaz, até porque já não há tendas.  

Ana Brito concorda que, hoje, há “um certo alívio”, comparado com o início da pandemia, mas que se mantém a gravidade e atenção, porque este novo coronavírus, sintetiza, tem uma “universalidade e imprevisibilidade muito maiores”, que pode atingir qualquer idade e pode correr mal em qualquer idade.  

“A ‘batalha’ não está ganha, temos novas ameaças por novas estirpes do vírus,  apesar da grande esperança na vacinação, portanto, temos de manter e ainda melhorar todas as medidas de prevenção que sabemos serem eficazes como o distanciamento físico, evitar locais aglomerados, uso de máscaras e higienização das mãos”, completa, pois “todos temos de contribuir para um melhor desfecho da pandemia”. 

Aliás, a directora do HBS é a primeira a reconhecer que a covid-19 veio dar a todos uma “enorme lição de humildade” e, no caso do hospital, de uma forma geral, conseguiu-se “muita união” entre as diversas categorias profissionais.  

“Ficamos com a clara noção de que a entreajuda é necessária entre os profissionais, não só de saúde, mas entre todos os intervenientes, não somos nada sem o outro, temos de trabalhar juntos”, exterioriza.

Outra “lição” da pandemia, diz Ana Brito, é que ficou “bem claro” que o distanciamento físico, a higiene das mãos e o uso de máscara “fazem milagres”, afinal, o que se tem “como certo” em relação à pandemia.   

Aliás, este hábito de usar máscara e lavar as mãos “já dá frutos” no hospital de São Vicente, que viu diminuir as infecções gripais e as pneumonias habituais, que têm uma “elevada taxa” de mortalidade  

Também em relação às doenças diarreicas, em crianças e em adultos, o HBS regista actualmente uma diminuição “bastante importante”, se comparado com há um ano, em que as salas estavam “sempre cheias” de pessoas a fazer hidratação oral e intravenosa.  

Ou seja, regozija-se Ana Brito, do mal que é a pandemia retirou-se este bem que foi a mudança de hábitos de higiene, quer dentro das instituições de saúde, quer na comunidade, de onde chega hoje ao hospital menos gente com doenças infecciosas.

Dados disponibilizados pela direcção do Hospital Baptista de Sousa indicam que até final do mês de Fevereiro de 2021 foram internados 123 pessoas no isolamento, dos quais 71 em 2020, e foram registados 16 óbitos, dos quais sete em 2020.

O primeiro caso confirmado da covid-19 na ilha de São Vicente ocorreu no dia 03 de Abril de 2020,  uma mulher de nacionalidade chinesa que se encontrava internada em isolamento no Hospital Baptista. Na altura, mais de 100 pessoas foram colocadas em quarentena.

O primeiro óbito em São Vicente ocorreu a 26 de Junho de 2020, e tratou-se de uma mulher de 92 anos, que se encontrava internada no hospital, mas que padecia de outras complicações de saúde.  

A declaração da covid-19 como pandemia, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorreu a 11 de Março de 2020, quadro que é definido como a disseminação mundial de uma nova doença para a qual a maioria das pessoas não tem imunidade.

AA/DR

Inforpress/Fim 

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