Cabo Verde assumiu desde o início com responsabilidade a sua condição de País de rendimento médio – ex-PM (c/áudio)

Cidade da Praia, 23 Jan (Inforpress) – O ex-primeiro-ministro  José Maria Neves considera que desde o primeiro momento Cabo Verde assumiu “com propriedade e responsabilidade” a sua condição de país de rendimento médio.

A graduação foi decidida pela Nações Unidas em 2014 e efectivada a 01 de Janeiro de 2008.

Em conversa com a Inforpress no momento em que completou dez anos da graduação de Cabo Verde para o grupo de Países de Rendimento Médio,  José Maria Neves, que chefiou o Governo que liderou o processo de transição e enfrentou os primeiros momentos dessa nova condição, adianta que o Governo de então teve de definir uma estratégia para enfrentar os desafios daí advenientes.

“Não era uma escolha de Cabo Verde, mas uma decisão das Nações Unidas. Houve países que chegaram a falsificar os seus dados estatísticos para não serem graduados, mas eu disse que nós teríamos que assumir a graduação como um desafio”, indicou.

Com a graduação Cabo Verde deixaria de ter um tratamento preferencial em termos comerciais, particularmente com o espaço da União Europeia e com os países industrializados e desenvolvidos e teria uma redução substancial das ajudas públicas.

Por isso o país teria que criar espaços e criar a sua própria riqueza para o próprio desenvolvimento.

E porque os desafios se apresentavam grandes José Maria Neves conta que o Governo propôs um período de transição, de sete anos, durante o qual o país foi acompanhado por um grupo de seguimento liderado pelas Nações Unidas.

Durante esse período, conta que o país fez reformas internas visando um elevado nível de boa governação para que Cabo Verde pudesse continuar a ter apoio da comunidade internacional nos seus esforços de desenvolvimento e propôs outros critérios de apoio ao desenvolvimento.

“Quando os nossos parceiros colocavam o problema da suspensão da ajuda e da diminuição substancial dos apoios eu dizia que Cabo Verde está no momento do take off, no momento de levantar o voo e que esse era o momento que o avião precisaria de mais combustível, não era o momento de se retirar combustível e que precisamos desse combustível para levantar voo”, anotou.

Apresenta com marcas desse período a consecução de dois compactos do Millenium Challenge a Accout (MCA), apoio norte-americano ao desenvolvimento e o desenvolvimento da parceria especial com a União Europeia.

No entanto vários países deixaram de dar ajuda pública o desenvolvimento e houve o anúncio da retirada do Programa Alimentar Mundial (PAM) do programa de cantinas escolares, algo que mais tarde foi concretizado, tendo o Governo assumido o programa das refeições quentes nas escolas.

“Portanto aqui podemos dizer que Cabo Verde foi criando mecanismos e políticas para fazer face a graduação. Hoje por exemplo nós temos as refeições quentes nas escolas assumidas pelo Governo de Cabo Verde, temos novos critérios de ajuda a Cabo Verde. Em vez de ajudas aos projectos, vários países passaram a apoiar Cabo Verde através de ajuda orçamental”, exemplificou.

José Maria Neves admitiu que no seio de Governo houve quem teve receio, mas adiantou que ele enquanto Primeiro-ministro em nenhum momento receou que a graduação pudesse ter efeitos negativos.

“Nós não podíamos continuar eternamente à espera da ajuda da comunidade internacional. Tínhamos que ter a capacidade interna de criar a nossa própria riqueza e a graduação surgiu como desafio de Cabo Verde nesse processo de desenvolvimento”, sublinhou.

Dez anos depois de o País ser graduado,  José Maria Neves, enquanto ex-chefe do Governo, considera que desde início o arquipélago assumiu “com propriedade e responsabilidade” a sua condição de país de rendimento médio

“Desde o início dissemos à comunidade internacional que íamos assumir claramente, só que continuamos a ser um País vulnerável”, indica, precisando que se fez, até, um estudo sobre a vulnerabilidade dos pequenos estados insulares, no caso nível da vulnerabilidade de Cabo Verde.

A partir daí, sintetizou, o Governo trabalhou “activamente” para assumir esse desafio de transição de um País menos avançado para um país de rendimento médio.

Hoje, o país “ainda precisa da comunidade internacional”, mas salientou que ao longo dos anos vem criando as condições para garantir a dinâmica de crescimento e desenvolvimento.

MJB/AA

Inforpress/Fim

 

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