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Brava: Henrique de Pina lamenta o “suprimir” do “Mastro” e teme que a tradição se perca

Nova Sintra, 23 Jun (Inforpress) – Henrique de Pina, 77 anos, que desde os 12 faz o revestimento do “Mastro”, vivendo e mantendo viva esta tradição nas três festas da “Bandeira” da ilha Brava, lamenta os dois anos em que esse ritual não se cumpre.

A ilha possui uma forte tradição em termos de Bandeira, mas existem aquelas a Santo António, São João e São Pedro, que, desde a antiguidade, vestem “Mastros” e há muitos anos que somente Henrique de Pina tomou e deu continuidade a esta tradição como forma de mantê-la viva.

Mas, pela segunda vez, em 65 anos, o septuagenário Henrique de Pina não vai poder cumprir a tradição secular de “vestir o Mastro”, ritual que por esses dias fervilhava a pacata ilha ao som dos tambores.

Não fosse por conta e culpa do novo coronavírus, há uns dias largos, a Brava dava-se início aos preparativos de uma das tradições juninas mais emblemáticas desta ilha, as festas de São João.

Nesta quinta-feira, 24, logo de manhã, às 7:00, haveria de se cumprir mais uma vez o ritual e a ilha inteira estaria presente num desfile animado, dirigindo-se a um lugar que se chama Cutelo Grande, onde vão “vestir” o Mastro.
Mas este ano a tradição não se vai cumprir na ilha Brava ou noutra localidade do arquipélago, por uma questão de “segurança sanitária” e para evitar o contágio do covid-19.

Henrique de Pina, que vem tentando manter esta tradição viva há décadas, diz temer que estes dois anos contribuam para o “desaparecimento ou morte” desta tradição, pois, conforme contou à Inforpress, a “idade está se aproximando e até então não conseguiu um sucessor que leve com empenho esta arte”.

O septuagenário lembra que começou nestas lidas aos 12 anos, no “tempo de Nho Tui, Nho Totoy, Frank”, figuras que vestiam o “Mastro” na altura, ele ainda rapazinho, sentava-se no Cutelo, e prestava atenção em cada passo que os “mestres” davam para confeccionar e “vestir” o Mastro.

Mas agora, de acordo com o “mastreiro”, nenhum jovem demonstra esta ambição ou desejo em aprender e fazer o Mastro, nem mesmo os seus filhos ou familiares que convivem com esta tradição em casa, desde que nasceram.

Recordou que quando criança, em todas as festas da “Bandeira”, deslocava-se até ao Cutelo, e observava as pessoas a fazerem as “vergas”, ou a estrutura do Mastro, depois vestiam-no, e ele, subia no Mastro e colocava o “mustareu”, pau que é içado à bandeira no fim e, como recompensa, recebia uma canastra (pão em diversos formatos) que levava aos pais.

“Assim, vim com esta ambição e, com o tempo eles morreram, dei continuidade e até agora, com os meus 77 anos, preparo o Mastro”, mas, com esta idade, de acordo com a mesma fonte, está sendo um pouco cansativo.

Henrique Pina emocionou-se ao relembrar que, antigamente, as coisas eram bem diferentes, porque nas festas da bandeira, havia muitas actividades tradicionais que hoje já não são lembradas e nem realizadas.

Falou do “quebra pote”, “panha algorinha”, onde penduravam argolas nos cavalos e as pessoas iam apanhando. Recordou ainda, de um cavalo que se chamava Kalifa, que descreveu como sendo um cavalo branco, que dançava e não magoava ninguém, entrava nas casas, independentemente se era sobrado ou não, mas o cavalo tinha de subir para dançar em todas as casas que passava, conforme o ritual da ilha.

“Este cavalo, quando sentia o pau no tambor, dançava juntamente com as coladeiras, como se fosse uma pessoa”, contou, num misto de alegria e tristeza, por ver a tradição a “morrer dia após dia”.

Recordou ainda, que na época, eram realizadas “boas feiras”, barracas e tudo era muito bom. Mas agora, acrescentou, “estão eliminando muitas destas tradições”.

O Mastro, até agora, é vestido logo ao amanhecer, quando as pessoas vão levar as oferendas, os festeiros entregam tudo o que possuem para colocar nele, e por volta das 17:00, é dado o “bote”, ou seja, deitam abaixo o Mastro e as pessoas vão pegar aquilo que puderem e quem deseja tomar a “Bandeira” para festejar no ano seguinte.

Chegada esta hora, todos se deslocam ao Cutelo para botar a sorte e tentar arrematar alguns bens que se encontravam no Mastro.

Entretanto, lamenta muito a falta de incentivo por parte dos jovens, porque, segundo o mesmo, hoje em dia, os jovens vão até o Cutelo, onde o encontram, mas nenhum é capaz de o ajudar. Caso houver bebidas, bebem, mas depois que terminam, vão embora e “não se preocupam em aprender”.

No Mastro, colocam um pouco de tudo, desde pão, frutas, flores, banana, bebidas, dinheiro, mas agora até isso tem vindo a diminuir.

Confrontado com a ideia desta tradição se perder, o presidente da Câmara Municipal da Brava, Francisco Tavares realçou que não será o caso, porque no próximo ano a esperança é de que a pandemia esteja amenizada e possam festejar as festas de bandeira na ilha com toda a “pompa” que sempre as festejaram.

No entanto, informou que nesta quinta-feira, 24, por volta das 17:00, horário em que é de práxis dar o bote ao Mastro e fazer a passagem da Bandeira, vão voltar ao local no caso de surgir algum particular que queira tomar a Bandeira para festejar no próximo ano ter esta oportunidade.

MC/JMV
Inforpress/Fim

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