Analista diz que os partidos de Cabo Verde “não reconhecem” André Ventura

Cidade da Praia, 14 Jan (Inforpress) – O jurista e especialista em marketing político Adilson Valadares disse hoje que todos os partidos políticos de Cabo Verde “não reconhecem” o presidente do partido de extrema-direita de Portugal, Chega, André Ventura, e alertou para o perigo dos discursos “bacatelas”.

Adilson Valadares falava à Inforpress sobre a polémica despoletada na imprensa portuguesa que aponta como um “criminoso” e patrocinador do partido Chega o empresário português César do Paço, que ocupava o cargo de cônsul honorário de Cabo Verde na Flórida, e que nesta quarta-feira o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, garantiu que irá ser exonerado.

O jurista fez uma viagem ao passado, onde recordou a revolução Russa, no século XX, a propalação do populismo na humanidade, bem como do levantamento da proposta utópica da abolição de classes e referenciou também a própria reacção negativa da extrema-direita no extremo oposto, no qual se faz um discurso anti-emigração, que, por sinal, é um dos discursos do André Ventura.

Adilson Valadares referiu que hoje, ainda existe uma “grande tradição” na América Latina e não só, onde fazem discursos de divisão de classes, em que os “banqueiros, os ricos são uma casta, são os privilegiados e nós, o povo, somos os sofridos”, contudo, realçou, tanto a extrema-direita e esquerda foram causadores de massacres no século XX.

“E estas questões aparecem com a crise, por exemplo, no século XX tinham esses fenómenos que trouxeram muito massacre, vieram depois de uma grande recessão mundial e a tendência, neste caso, na Europa, a extrema-direita, e não só, deve se ao facto da crise de 2008, em que começou-se a fazer propostas anti-imigração. Portanto, as pessoas pensam que os imigrantes vão a estes países para retirar o emprego aos nacionais, e daí há os discursos nacionalistas, de ódio, de divisão de pessoas, ou seja, tudo aquilo que sabemos que o André Ventura encaixa-se muito bem”, precisou o especialista.

“… Felizmente, em Cabo Verde veio a adoptar-se o pluripartidarismo”, vincou, tendo constatado que, hoje, no seio dos partidos políticos, o País não tem as tradicionais características do populismo, mas tem tendenciais, meios e técnicas que são utilizados mesmo a nível da casa parlamentar, no sentido de atacar as instituições democráticas, a divisão do povo, por vezes, “a irracionalidade de tentar dividir a sociedade homogénea entre o badiu e o sampadjudo, etc.”, indicou.

Instado sobre a justificação do ex-ministro sobre a nomeação para cônsul de César do Paço, de que na nomeação, as autoridades “não perguntam aos candidatos a que partido pertencem”, Adilson Valadares respondeu que “não há uma tradição”, mesmo havendo fortes suspeitas de actos indevidos e imoral as pessoas pedirem demissão.

Por isso, afirmou, se deve reconhecer esta “nobre” atitude do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades e ministro da Defesa, Luís Filipe Tavares, que “deve servir de aprendizado a Cabo Verde”.

“A política não é uma profissão, sendo o político um servidor público. A política se faz pela qualidade de análises, de pormenores, pela frieza e tranquilidade que um político alberga de forma que, um político, sabendo onde está, deve analisar em pormenor, todas as questões”, sustentou Adilson Valadares.

Para este especialista em marketing político, o ex-ministro obedeceu, nos termos da lei e das normas, ao avaliar o curriculum vitae do César do Paço e prosseguir, assim, com a nomeação do mesmo a cônsul, já que não se tratava de um cargo de embaixador.

Por outro lado, ressaltou, o que seria “grave”, era se mesmo sabendo dos factos apurados, de que César do Paço é patrocinador do partido de extrema-direita, o Chega!, sendo Cabo Verde um país que é feito de emigrantes e que coloca a pessoa humana no centro de tudo, e não tomar as providências que foram tomadas.

“Há uma tendência natural para os extremos em todos os partidos, seja do MpD seja do PAICV, podemos ter pessoas extremas, agora temos que partir do pressuposto que todos os partidos são pessoas do bem”, disse Adilson Valadares, salientando, por outro lado, que não se tem partidos iliberais em Cabo Verde porque a Constituição não permite.

Entretanto, observou, todos os partidos políticos do País não reconhecem o André Ventura, por isso, aproximando as eleições espera que os discursos não sejam de “paixões, de ódio e de bacatela política” baseados neste tipo de situações de modo a não trazer “mais stress” para Cabo Verde.

O jurista chamou atenção ainda para o facto de o presidente do Chega!, André Ventura, estar no parlamento português. Por este motivo, apelou para a necessidade de saber gerir esta situação, para que o País “não saia mais fragilizado”.

TC/CP

Inforpress/Fim

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