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Alunas costuram para vencer tabu da menstruação em Moçambique

Chimoio, Moçambique, 05 Set (Inforpress) – Ester João, 14 anos, perdeu 198 aulas, quase um terço do ano lectivo 2019/20, por conta do tabu em torno da menstruação, que a impedia, entre outras coisas, de ir à escola no centro de Moçambique.

De uma família humilde, a adolescente, sem capacidade financeira para adquirir pensos convencionais, recorria durante o período menstrual a trapos que a mãe rasgava dos vestidos para a filha usar como pensos.

Artigos de higiene íntima são caros e inacessíveis, sobretudo em zonas rurais como é a aldeia de Buzua, interior norte de Manica.

Mas os trapos de pouco serviam e as alunas são motivo de troça, estigma e isolamento na escola e na comunidade, como as próprias relatam. 

“Esperava o período acabar para poder ir à escola”, diz à Lusa Ester João, só que a espera custou-lhe a repetição do oitavo ano por excesso de faltas.

Segundo vários tabus – mudam de região para região – a rapariga no estado menstrual não pode frequentar lugares públicos ou sequer encostar-se a colegas que não estejam na sua condição. 

A mulher não pode colocar sal nas refeições e nalguns locais nem pode confeccioná-las, para não causar hérnias aos homens.

Outra crença é de que o sangue menstrual, além de ser usado para rituais satânicos, quando é visto por homens pode tirar à mulher a faculdade de engravidar ou ter marido, que é tido como a principal razão para retracção das adolescentes nas escolas durante a menstruação.

Em média, por ano, 50 alunas em idade menstrual não terminavam o ano lectivo no distrito de Tambara até 2019, número geralmente associado a fragilidades económicas das famílias, que não conseguiam ter trapos suficientes – depois de usados eram enterrados – ou comprar pensos descartáveis para cobrir o ano lectivo.

“O número de raparigas que não assistiam às aulas no período menstrual era muito maior” diz, em declarações à Lusa, Samisson Cumbuia, director distrital de Educação, Juventude e Tecnologia de Tambara.

Uma iniciativa da organização não governamental Save The Children internacional está a tentar resolver o problema.

Consiste na produção de pensos reutilizáveis, feitos à base de capulana – tecido tradicional africano –, toalhas de banho e costurados manualmente com agulha e linha.

“Queremos reduzir os eventos que colocam as meninas fora do sistema de educação”, diz, em declarações à Lusa, Ana Dulce Guizado, directora da organização não-governamental (ONG) Save The Children em Manica.

O programa ensina as raparigas a costurar os seus próprios pensos, com a ajuda de tutoras e enfermeiras que falam sobre a higienização e ensinam a produção de pensos a outras raparigas das suas aldeias.

Em dois anos, o programa, que se estende até 2023, conseguiu ensinar a costurar e reter 1.947 raparigas dos 12 aos 24 anos nos quatro distritos de implementação: Manica, Macossa, Machaze e Tambara.

“As pessoas não têm dinheiro para adquirir [pensos convencionais] e são poucas as lojas que têm este tipo de produto” diz à Lusa Julieta Dzingua, directora distrital da Saúde.

Lúcia Beca, 55 anos, faz uma demonstração do uso dos pensos tradicionais em mais uma sessão onde novas raparigas vão aprender a costurá-los.

A matrona tutora tem a missão de desmistificar o “tabu” em torno da menstruação, acompanhada de uma enfermeira.

Rosalina Sérgio dá o exemplo: está no seu segundo ano menstrual e nunca precisou de faltar à escola desde que passou a utilizar os pensos reutilizáveis.

Outros desafios permanecem, refere Ana Dulce Guizado, como a dificuldade de algumas famílias até para ter material com que costurar, mas o projecto tenta dar resposta e levar matéria-prima até esses agregados familiares.

Inforpress/Lusa/Fim

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